Paradoxo da corrida

O despertador toca às 05:59 da manhã de um sábado chuvoso e eu hesito em levantar diante dos fortes argumentos que corroboram a opção de ficar no quentinho da cama a sair correndo feito louco, na manhã fria, úmida e solitária que me reserva a paisagem de minha janela.

Convenhamos, embora os especialistas cansem de dizer que o nosso corpo foi feito para o constante movimento, as nossas células tentam contradizê-los, deixando claro que a prática regular de exercícios vai de encontro a natureza humana.

Também pudera! Pura herança genética. Em tempos mais remotos seria inconcebível e insano imaginar um exibido homo sapiens sair para uma corridinha matinal de 10 Km, antes do desjejum de javali que o aguardava na fogueira. O normal mesmo seria esperar que ele se preservasse ao máximo para momentos de grande estresse: fugir de predadores ou correr atrás de comida, ambas ações necessárias para perpetuar a espécie.

Na verdade, o corpo humano se moldou, ao longo dos tempos, para ser esta espetacular máquina de otimização de energia que é hoje. Se ficarmos ligados no “automático” o que mais nos parecerá natural será comer exageradamente e afundar no sofá, na frente da TV, economizando energia à espera de algum evento que nos exigiria o máximo esforço.

Só que, como um paradoxo, com alguns de nós, as coisas não funcionam bem assim. Quando lembro da sensação de liberdade que sinto quando estou correndo, dos cheiros e das imagens colecionadas pelo caminho, pulo da cama e esqueço a preguiça! É de se perguntar: será que a “estranha” turma da corrida estaria imune à perversa lógica do “não movimento”? Parece que, de certa forma, sim. Tudo o mais passa a ser secundário quando o assunto é correr!

Costumo brincar e dizer que existem dois grupos bem definidos: aqueles que amam correr e aqueles que não sabem correr. Isso, porque quem começa a correr sem que esteja minimamente preparado para isso, sente desconforto e desprazer, além de se expor a lesões e outros males. Vai logo dizer: “…não gosto de correr!…”.

Infelizmente, tem coisa que não se encontra na prateleira de uma loja. O condicionamento para correr é uma delas. Além disso, é muito difícil explicar com palavras a sensação experimentada por quem corre. O fato é que, mesmo saindo indisposto para correr, bastam alguns minutos de corrida para que as endorfinas façam o trabalho de alegrar e encher de disposição o seu dia.

Mas, a corrida é um esporte que, apesar de democrático, exige planejamento e respeito às etapas pelas quais deverá passar o seu corpo, em preparação. A orientação permanente de especialistas (médicos e preparadores físicos) também é indicada para que o futuro corredor dê passos seguros em direção à sua nova vida. Prudência e perseverança são ingredientes indispensáveis nesta fase, sem esquecer de que quem pretende correr, deve sempre começar andando.

Vivemos em um ambiente cada vez mais estressante e competitivo. Estatísticas nos têm evidenciado que a sociedade moderna tem sido acometida por um substancial aumento de doenças relacionadas ao sedentarismo e à obesidade que somente o exercício regular e a ingesta alimentar qualificada poderia evitar.

Nada mais oportuno do que a escolha de um meio de vida em que se possa se manter saudável e em forma, sem regimes da moda ou exercícios de final de semana. E, por ser o esporte adequado para que se atinjam tais objetivos, a corrida tem se popularizado de forma impressionante em todo o mundo.

O meu desejo é que, cada vez mais corredores “invadam” nossas ruas, alegrando nossas cidades. Quero ver gente mais feliz e saudável, contrariando os alarmantes números de saúde pública, provocados pelos maus hábitos de vida.

O mais difícil talvez seja dar o primeiro passo em direção à mudança. Mas, feito isso, quando menos esperarmos, estaremos brigando pelo tênis de corrida e, não, pelo controle remoto.

 

* Haroldo Santos Filho é advogado e contador.

** Artigo de opinião publicado na Revista “EKLÉTICA”, ano I, Nº 2, AGOSTO 2015 – Coluna “Atirei o pau no gato”.

(revistaekletica@gmail.com)

atirei_pau_gato_Revista Eklética n.02 - Agosto 2015

A corrida é um antidepressivo poderoso

Entrevista de Drauzio Varella para a Revista CLAUDIA (Atualizado em 22/06/2015)

“A corrida é um antidepressivo poderoso”

O médico Drauzio Varella escolheu a corrida como impulso para ter disposição para tocar seus múltiplos projetos. Maratonista há 22 anos, ele lança agora um livro contando sua experiência nas pistas e ruas.

Por Luara Calvi Anic

 

Dr. Drauzio Varella

 

Certo dia, o médico paulistano Drauzio Varella cruzou com um conhecido de colégio que não via havia muito tempo. Daquela conversa arrastada, um comentário do amigo o marcou: “Ano que vem, 50 – idade em que tem início a decadência do homem”. Drauzio, que completaria meio século de vida no ano seguinte, ficou intrigado. Afinal, sentia-se bem, corria ocasionalmente e estava sem fumar fazia 13 anos. E, principalmente, ainda tinha muitos projetos e desejos a realizar. Resolveu, então, propor um desafio a si mesmo: correria a Maratona de Nova York dali a um ano. E começou a treinar. Hoje, aos 72, o médico é um maratonista com currículo invejável e já viajou o mundo atrás de provas de 42 quilômetros: esteve nas de Buenos Aires (Argentina), Boston e Chicago (Estados Unidos), Berlim (Alemanha) e Tóquio (Japão), entre outras. Autor de livros como Estação Carandiru, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Não Ficção, acaba de lançar Correr (Companhia das Letras, 29,90 reais), em que oferece informações médicas sobre a corrida e relata sua experiência com a atividade. Com franqueza, no livro admite que não é nada fácil deixar a preguiça de lado para praticar esportes e reafirma a necessidade de uma mudança de hábitos para que possamos desfrutar bem a vida e envelhecer com saúde. “Envelhecimento não tem que ser igual a doença. Um dia todos vamos ficar doentes e morrer, mas isso não precisa acontecer aos 40 anos, nem aos 50”, diz. Equilibrando na agenda as obrigações como médico, escritor, voluntário em presídio, pesquisador, celebridade na TV e, claro, maratonista, Drauzio arrumou um tempo para conceder esta entrevista exclusiva a CLAUDIA, que aconteceu em um sábado, às 8h30 da manhã.

O senhor já correu hoje?

Não. Machuquei o pé na maratona de Boston, em abril. Não posso correr ainda por mais algumas semanas, mas enquanto isso subo os 14 andares da escadaria do meu prédio até o meu apartamento.

Isso não faz mal aos joelhos?

Subo pela escada e desço pelo elevador justamente para não forçá-los. Depois, subo de novo. É um exercício maravilhoso.

Os joelhos são um alvo fácil quando ouvimos críticas à prática de corrida. Correr realmente os destrói?

Isso é um mito. Se você está obeso, não faz exercício há anos e se põe a correr, é lógico que vai fazer mal. Geralmente são essas pessoas que têm os maiores problemas com a prática – inclusive nos joelhos. Pesquisas mostram que as cirurgias nessa parte do corpo e nos quadris são muito mais comuns em quem anda do que em corredores. E isso acontece por várias razões. Uma delas é que, embora na corrida cada passada aumente o peso do corpo em duas a três vezes, você fica com o pé muito menos tempo no chão, então o impacto dura pouco. Além disso, esse movimento de estica e volta acaba por fortalecer as articulações. É parecido com o que acontece com o músculo que, conforme contrai e descontrai, cresce e fica mais forte.

Uma pessoa que está acima do peso precisa emagrecer antes de começar a correr?

Depende muito de quanto acima do peso ela está. Com poucos quilos a mais, ela pode começar devagar, tomando cuidado. O problema é quando ela está completamente despreparada e sai correndo de uma vez. Eu sempre recomendo o bom senso para os pacientes. Todo mundo pode correr, depende de como faz isso. Uma estratégia inteligente é começar andando e ir testando: correr 100 metros e continuar na caminhada; quando se sentir melhor, corre mais 200, e assim vai.

Pesquisas mostram que no treinamento para as maratonas os corredores têm melhoras na saúde, mas que os riscos de morte aumentam durante a prova, quando o atleta força demais o corpo.

Concorda que participar desse tipo de competição pode fazer o atleta perder a noção do limite?

É muito pequeno o número de mortes em maratonas. Mas é verdade que você perde um pouco a noção. O Vanderlei Cordeiro de Lima, aquele atleta brasileiro que foi agarrado na Maratona de Atenas, diz que nós, maratonistas, temos maior resistência à dor que as outras pessoas. É verdade. Normalmente, quando sente uma dor você para, toma cuidado. Já no calor da maratona é muito difícil parar porque você fica naquele ânimo. E foi até lá pra correr, não para andar.

Participar de maratonas é saudável?

Do ponto de vista da saúde, não há nenhuma necessidade de correr 42 quilômetros. É uma onda em que alguns entram. No meu caso, não faço isso porque acho que é ótimo. Nem sei se é tão bom assim para o corpo. Eu faço porque me impõe a disciplina de treinar. Trabalho muito e, se não tenho a obrigação de acordar e correr essa distância toda, fica difícil levantar às 5 horas da manhã, vestir um calção e sair correndo. Isso não é natural do homem.

O CORPO HUMANO NÃO FOI FEITO PARA FICAR PARADO. A EVOLUÇÃO NOS PREPAROU PARA O MOVIMENTO.

Assim como não é natural desperdiçar energia.

Sim. Por isso que é muito duro conseguir praticar uma atividade física regular. Você imagina um homem das cavernas levantando de manhã para sair correndo à toa? Só se fosse para ir atrás de caça, fugir de um predador. Caso contrário, ele ficava parado, quieto, economizando energia. Não havia alimentos suficientes disponíveis para manter um corpo com esse gasto energético inútil.

O senhor escreve que corre na rua, no centro de São Paulo. Perde quem treina em academia?

Quem corre em esteira está fazendo um exercício excelente da mesma forma. Eu gosto de andar na rua. Nasci no Brás (região central de São Paulo), fui criado correndo pelo bairro. Esse é o momento do dia em que eu tenho silêncio. Não uso fone de ouvido durante a prática. Na academia, a música fica tocando alto. Para mim, não é legal, não me descansa. Mas tem gente que está acostumado. Exercício você tem que fazer do jeito que dá, que consegue e que gosta – porque, se já é difícil manter a disciplina e fazer com regularidade gostando, imagine sem gostar.

E o corpo não vai lhe pedir para levantar da cama, não é mesmo?

Pelo contrário. Temos mil razões para ter uma vida sedentária, e é por isso que a maioria da população não pratica esportes. Mas não dá para aceitar isso. A vida sedentária faz muito mal, não fomos feitos para ficar parados. O corpo humano é como uma máquina que foi desenhada para o movimento. Do contrário, você vai lamentar.

Muitos adultos têm problemas de saúde que poderiam ser evitados com a prática de esportes?

Sim. As pessoas são sedentárias, engordam, têm pressão alta. Metade dos brasileiros acima dos 50 anos é hipertensa, precisa de remédio para controlar a pressão. O número de diabéticos aumenta sem parar, é assustador. A vida vai ficando complicada. O ser humano até 25, 30 anos vai bem. Mas, se quer ter uma vida plena, precisa de mais cuidado. A natureza não planejou o homem para viver o tanto que nós vivemos hoje em dia. As pessoas morriam com 20 ou 30 anos, isso era o normal. Queremos durar o máximo possível sem investir nada, achando que o corpo é um presente de Deus e que podemos usar e abusar dele do jeito que acharmos melhor. Não é verdade.

O que mudou na sua vida depois que começou a correr?

Em primeiro lugar, ganhei mais disciplina. Quando comecei a treinar para maratonas, tive que estabelecer uma rotina. Do contrário, não conseguiria acordar cedo para me exercitar. Depois, o fato de propor e alcançar uma meta difícil, seja ela qual for, traz uma sensação de autoconfiança muito grande.

A CORRIDA É UM ANTIDEPRESSIVO PODEROSO. TRAZ A SENSAÇÃO DE QUE VOCÊ É CAPAZ DE RESOLVER QUALQUER COISA.

O senhor virou maratonista aos 50 anos, quando muita gente já está desacelerando. Faz diferença?

Comecei atrasado (risos). Mas isso me deu um entendimento mais claro do processo de envelhecimento. Ensinou-me a não levar em conta a idade cronológica. E isso vale não só para a corrida mas para outros desafios na vida também. Quando me proponho um trabalho ou uma tarefa, avalio se tenho condição física de realizá-los, se tenho disposição e se aquilo me interessa. Jamais penso se estou velho demais. Nossa tendência é considerar que por causa da passagem dos anos perdemos a condição de fazer certas coisas. E isso independe da idade: há quem tenha essa sensação aos 80, outros aos 40 anos. Assim, parece que a fase mais produtiva da vida, justamente quando você podia aceitar mais desafios, já passou.

O senhor pensa em parar de correr?

Não. Mas sei que uma hora vai ser impossível continuar. Acho que, enquanto eu tiver força, condições, disciplina e saúde, vou correr porque virou uma coisa muito importante para mim. Não só por saber que cheguei a essa idade sem tomar um remédio, com a saúde ótima, mas também do ponto de vista psicológico. Sou muito agitado e ansioso, quero fazer tudo logo e, quando fico uns dias sem treinar, pioro. A corrida é um antidepressivo poderoso. O corpo libera substâncias químicas que agem no sistema nervoso central e, além do prazer, provocam aquele relaxamento típico do exercício. Você toma um banho e sai com a sensação de que é capaz de resolver qualquer problema. Dá uma autoconfiança muito grande. No dia em que eu não puder fazer isso, vou sentir muita falta.

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Correr por toda a vida

Fauja Old Runner (Jeff J Mitchell / Getty Images)(Por Nuno Cobra)

 

O trabalho e a preocupação com o corpo são por demais recentes. Vou me usar como exemplo: quando eu corria na década de 1950 somente o fazia nas beiradas do rio Pardo e nos pastos daquela cidade. Para mim, a atividade era uma ferramenta em busca de prazer — e sem nenhuma pressão ou cobrança. Hoje a corrida deixou de ser uma atividade prazerosa e passou a ser uma necessidade vital para o corpo. Tornou-se uma verdadeira obrigação de toda pessoa para com ela mesma e uma forma de elevar seu nível de saúde. Passou a ser vista, também, como uma maneira de adquirir uma vida repleta de energia, vitalidade, bom humor e satisfação de viver.

Muitos esquecem, porém, que, para que isso aconteça, é necessário fazer da corrida algo agradável e sensato. Uma pessoa que se expõe a correr maratonas seguidas e está sempre pressionada a conquistar um tempo melhor é insensata e promove em seu corpo uma verdadeira agressão. Não podemos esquecer que corremos hoje para correr amanhã e sempre. De nada adianta correr por sete, oito ou até 12 anos, se chegarmos aos 50 quebrados e com lesões — e sem a possibilidade de exercer essa nossa importante paixão. Correr dessa forma é a coisa mais estúpida que você pode fazer com o seu corpo. E, em vez de ajudar o seu organismo, somente irá agredi-lo.

A corrida é, sem dúvida, a melhor e a mais natural forma de elevar a sua saúde, de lhe dar alegria e proporcionar uma vida melhor. Mas é necessário autocontrole para não cair nessa maluquice de cobranças. Preocupe-se menos com o tempo que faz nas competições, mesmo porque este será sempre o resultado do nível de preparo em que nos encontramos.

Precisamos, portanto, aprender a correr sem pressão. Se ninguém está nos cobrando, por que, então, fazer isso com nós mesmos? Não somos atletas profissionais e não devemos satisfação a ninguém. Devemos correr para sentir prazer, nada mais. Melhor do que um recorde é poder conquistar um corpo incrível que nunca seja lesado por nada para que, quando estivermos com a idade bem avançada, possamos continuar a praticar essa atividade sem nada que nos impeça. Aos 60, 70, 80 ou bem mais, a corrida vai continuar a nos dar a mesma sensação fantástica, pois estaremos fazendo coisas maravilhosas ao nosso corpo, espírito e mente. Se pudermos correr neste fantástico momento de nossa vida, justamente no qual me encontro agora, aos 76 anos, teremos uma vida muito especial, cheia de alegria e com aquela exuberância de vitalidade.

Encare a corrida, portanto, como um instrumento que fará com que você chegue à idade avançada sem uma coleção de doenças. Eu, por exemplo, corro há bem mais de 60 anos, e por ter feito isso sempre com uma frequência cardíaca baixa e periodicidade correta, dando oportunidade ao descanso e poupando minhas articulações, até hoje me sinto exuberante, com muita energia e em plena atividade profissional.

Lembre-se, querido leitor, que o que marca em nossa vida não é o melhor tempo, mas sim a conquista da melhor corrida dentro daquele tempo de que dispomos em cada competição. O prazer é fazer novas amizades, participar da competição e ter espírito cooperativo com nossos amigos corredores. É isso o que nos move e nos impulsiona fazer por toda a vida.

(Coluna publicada na Revista O2, edição #144 – maio de 2015)

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Um par de tênis e nada mais (Marcio Caparica)

 Um par de tênis e nada mais

Nosso repórter viajou aos Estados Unidos e tirou a roupa para participar de uma prova pelado. Nada de pudor, número de peito ou frequencímetro. Só muito balanço e diversão em uma corrida na qual short e camiseta não têm vez. Dispa-se dos preconceitos e saiba tudo que acontece quando se corre usando apenas um par de tênis

Por Marcio Caparica | Fotos Kirill Tokarev | Ilustrações Thales Molina

Redação engajada, essa da RUNNER’S WORLD Brasil. A turma costuma viver na pele as reportagens que publica na revista. A editora Patricia Julianelli fez três meses de tratamento para melhorar sua postura e contou para os leitores o efeito do experimento em sua mecânica de corrida. O diretor Sérgio Xavier descobre as corridas mais lindas do mundo vestindo a camisa da revista. O repórter Bruno Favoretto, que perdeu o movimento das pernas em um acidente há 12 anos, começou a correr por meio de um projeto da RUNNER’S e no ano passado completou a Maratona de Nova York em cima de sua cadeira de rodas.

Até que um dia a editora-assistente Julia Zanolli me perguntou: “Marcio, você não quer aproveitar sua viagem para os Estados Unidos e participar de uma corrida pelada para a gente?” Eu planejava cruzar a América de bicicleta e topei o desafio na hora. Essa pauta circula na redação desde o lançamento da revista, esperando a oportunidade certa e um repórter despudorado o suficiente para levar a ideia adiante. Encontramos uma prova que coincidia com a data da minha viagem — e eu não tenho qualquer problema em correr sem roupa. Tudo convergiu para fazer esta matéria acontecer. No meio de tanta gente dedicada, como dizer não?

Como viemos ao mundo

A tarde estava ensolarada quando peguei um táxi até o local da prova, próximo à cidadezinha de Palmerton, na Pensilvânia (EUA). O motorista, ainda no meio do caminho, comentou: “Sabe que tem um resort onde todo mundo fica pelado nessa região aonde você está indo?” “Sei”, respondi. “E é para lá mesmo que nós vamos.” O rapaz arregalou os olhos e dirigiu visivelmente tenso pelos 20 minutos seguintes, até chegarmos ao nosso destino.

A prova escolhida foi a Bouncing Buns (“bumbuns balançantes”, em tradução livre), uma corrida de 7 km em trilha que acontece anualmente dentro do resort nudista Sunny Rest. Em 2010, na primeira edição da prova, foram 20 participantes. Dois anos depois, já éramos 161 corredores. Para não ser pego de calças curtas no dia da corrida, decidi chegar ao hotel um dia antes, a fim de garantir que estaria lá na manhã do evento. Quando o táxi chegou ao resort, pelados e peladas de todos os tipos e tamanhos curtiam o dia de calor ao redor da piscina. O motorista não sabia para onde olhar. Aceitou o pagamento com pressa, me deu o recibo já pisando no acelerador e foi embora sem olhar pelo retrovisor.

Fiz check-in ao lado de um casal que, sem roupa, tranquilamente comprava um refrigerante. O resort é grande, com extensos gramados, vários bosques, muitos trailers e nenhum pudor. Fui me instalar na área de camping e 20 minutos depois, com colchão inflável, saco de dormir e mochila guardados dentro da minha barraca para uma pessoa, dei adeus às vestimentas. A primeira coisa que fiz foi passar protetor solar por todo o corpo. Com uma toalha no braço (essencial para quem vai ficar sentando pelado por aí), óculos escuros na cara e chinelos nos pés, fui para a piscina aproveitar o resto da tarde. Não senti vergonha ao ficar nu, só um estranhamento por estar sem roupa fazendo coisas que normalmente costumo fazer vestido.

Depois de entrar no clima “menos é mais”, nadei, tomei um pouco de sol e comi um hambúrguer no bar. Ao meu lado, um coroa nu como veio ao mundo garantia a música ao vivo, dando novo significado para o termo “um banquinho, um violão”. No começo da noite, juntei-me a um grupo de dez ou 12 naturistas que já estavam havia algumas horas na jacuzzi. Lá, conheci um rapaz que também tinha ido ao resort para participar da corrida e, melhor ainda, já tinha feito a prova antes. “Você tem algum conselho para dar?”, perguntei. “Sim”, ele respondeu, sério. “Cuidado pra não cair.”

Por que correr pelado

Os naturistas são um grupo de pessoas que acreditam que fazer as coisas pelado permite que você tenha um contato mais próximo com a natureza. Então eles nadam pelados, jogam vôlei pelados, comem pelados, cantam pelados, jogam dominó pelados, veem filmes pelados, jogam tênis pelados, dançam na discoteca pelados… Então, por que não correr pelado? A quantidade de atividades que o resort oferece para você fazer sem roupa é impressionante. Só não pode encostar um no outro. Por mais que o senso comum pense o contrário, entre os naturistas a nudez não é encarada como uma coisa sexual.

As naked runs, ou corridas sem roupa, são realizadas em várias partes do mundo: lugares como Austrália, Inglaterra, Canadá, Finlândia e Espanha. Mas a grande maioria delas acontece nos Estados Unidos, onde esse tipo de prova já existe há muitos anos. Normalmente são percursos curtos e não é obrigatório correr pelado, embora a maioria dos atletas deixe shorts e camisetas de lado para participar. Segundo a Federação Brasileira de Naturismo, não existe nenhum evento desse tipo no país.

Número de pernas

O dia da prova amanheceu lindo e ensolarado. Era hora de testar se para correr você só precisa de um par de tênis — e nada mais. Sem roupa já há 15 horas, calcei meu pisante e fui me preparar para a corrida. Para começar, passei mais protetor solar, principalmente nas áreas tradicionalmente menos expostas ao sol. Depois, muito repelente contra insetos. Com tanta natureza ao redor, não queria acabar cheio de picadas, muito menos em regiões mais sensíveis. Para finalizar, vaselina entre as coxas para evitar assaduras. Pensei bem e resolvi aplicar porções generosas em todas as outras dobras das pernas para evitar o atrito. Depois de colocar os óculos escuros, percebi que não tinha onde prender o MP3, então fui sem música mesmo.

A inscrição para a prova começou às 9 da manhã, 1 hora antes da largada. Assim que dei meu nome e paguei a taxa, fui reconhecido como “aquele repórter brasileiro da RUNNER’S que está ligando para cá há semanas”. Virei uma minicelebridade “Então você vai correr sem nada, né?”, perguntou Ron Horn, o organizador do evento, rindo. Com uma caneta, ele escreveu na minha coxa esquerda o número de inscrição. Afinal, não daria para prender o número de peito em lugar nenhum.

Espalhados pelos gramados ao redor da concentração para a largada, dezenas de participantes se aqueciam para a prova. Alguns homens usavam suporte atlético (uma espécie de cueca mais cavada que ajuda a manter as coisas no lugar), algumas mulheres vestiam tops, mas a imensa maioria dos atletas estava completamente nua, não usavam nem a faixa de peito do frequencímetro. Corredores de todas as idades, quase todos homens, faziam tiros, conversavam entre si e se alongavam. Ah, o alongamento. Se você já ficou constrangido ao se inclinar para esticar as pernas, imagine o que é tentar alcançar os dedos dos pés sem nada para cobrir as nádegas.

Às 10 da manhã, debaixo de um sol ardido, todos os corredores se aglomeraram em frente à linha de partida, tentando ao máximo manter uma distância respeitosa uns dos outros. Mr. Horn fez um pequeno discurso sobre o recorde de participantes naquele ano, deu instruções sobre o percurso e anunciou a todos a presença do repórter da RW. Nada de tiro para anunciar a largada: em uma corrida como essa, o sinal para começar a correr foi dado quando o organizador abaixou as calças e disparou o cronômetro oficial. Lá se foram os bouncing buns.

Balança mas não cai

Inevitavelmente, a primeira coisa que você repara em uma prova sem roupa são as bundas. Dezenas e dezenas de bundas sacolejando à sua frente. Bundas grandes, bundas pequenas, bundas lisas, bundas peludas, bundas moles, bundas duras, bundas bronzeadas, bundas brancas, bundas com celulite, bundas sem bunda. Uma fileira de bundas a perder de vista. É tanta bunda que você às vezes se esquece do esforço que está fazendo para correr. Eventualmente, você é ultrapassado por uma mulher, mas a presença delas nesse tipo de prova é menor. Então você vê peitos, peitinhos e peitões, empinados e caídos, balançando a cada passada.

O trajeto era uma pirambeira. Os 7 km do percurso serpenteavam por todo o resort, começando no asfalto, mas logo subindo ladeira acima para entrar nos bosques. Aí o conselho do meu colega de jacuzzi fez sentido. Para este corredor urbano, acostumado com as poucas surpresas do asfalto, correr pelos desníveis de uma trilha entre árvores chega a ser uma experiência tão inovadora quanto correr sem roupa. Foram quase 4 km mato adentro. Cada tropeço numa raiz da trilha me fazia suplicar em silêncio para não rolar ladeira abaixo e me ralar dos pés à cabeça — literalmente.

Os quilômetros finais eram asfaltados, então a principal preocupação passou a ser o calor. O suor escorre e pinga livremente corpo abaixo, sem um elástico de short para detê-lo no meio do caminho ou uma peça íntima que o absorva. Não chega a ser desconfortável, mas é algo inédito. Peço perdão aos leitores e leitoras mais sensíveis para descrever outra sensação inédita. Normalmente, um homem se esquece do amigão lá embaixo durante a corrida — ele fica guardado, preso e protegido. Já numa corrida sem roupa, a história é outra. Nosso companheiro, livre e solto, se faz lembrar o tempo todo, saltando da esquerda para a direita nos trechos planos, pulando para cima e para baixo nas subidas e descidas. Doloroso? Não. Inesquecível, com certeza. Sempre entre as coxas, as bolas não chegam a ser um problema, mas agradeci o tempo todo pela vaselina extra que tive o bom-senso de aplicar.

Prêmios sem-vergonha

Ao fim de 43 minutos de corrida, cruzei a linha de chegada. Sem chip nem qualquer outro tipo de medição eletrônica, os organizadores conferiam os números nas coxas de quem chegava e gritavam o tempo para que outra pessoa anotasse. No resultado oficial do evento, apenas os nomes dos participantes, nada de sobrenomes. Depois da dispersão, os atletas trocavam impressões sobre a prova, tomavam isotônico, comiam frutas e comparavam resultados. Tudo muito parecido com uma prova de corrida tradicional, exceto pelo fato de que todo mundo estava pelado. O barato da serotonina, a satisfação de sentir o sol batendo no corpo todo, a alegria por ter completado uma prova tão divertida e o alívio de terminar a corrida ileso. Todas essas sensações compunham o clima festivo do pós-prova. Como a corrida era pequena, posso afirmar que todas aquelas pessoas estavam felizes, alegres por terem cruzado a linha de chegada e agora estarem compartilhando a experiência com outras pessoas com o mesmo alto astral.

Algumas horas mais tarde, na beira da piscina do hotel, os atletas se reuniram para a entrega dos prêmios, ainda com os números pintados nas coxas. Microfone em uma mão, resultados na outra, chinelos nos pés e nada mais pelo corpo, o organizador Ron Horn entregava troféus — um bebezinho engatinhando, pelado — para os participantes mais velozes de cada faixa etária. E previa, animado, que no ano seguinte eles haveriam de chegar a 200 competidores. Contente, agradeceu minha presença e me convidou a retornar no ano seguinte, algo que, sinceramente, eu adoraria fazer. De lembrança, ironia das ironias, ganhei uma camiseta da prova.

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