Archive for the ‘Atirei o pau no gato’ Category

Lições de ídolo

Wednesday, June 10th, 2015

Uma de minhas boas lembranças da infância era a de meu pai, no café da manhã, vestido com um impecável terno, dividindo sua atenção entre o pão com manteiga e a sagrada leitura do jornal, enquanto mexia de forma ritimada, o seu café com leite. Lembro da segurança e da tranquilidade que aquela imagem me passava. Parecia que tudo acontecia em câmera lenta. Enquanto via a cena, era impossível deixar de pensar: quero ser igual a ele.

Não sei quantas vezes, ao longo de minha vida, me vi agindo como meu pai. Não posso afirmar, exatamente, qual grau de influência a sua figura exerceu sobre as minhas escolhas, mas reconheço a enorme importância de termos alguém em quem nos espelhar, dentro ou fora de casa.

No esporte, esta premissa parece óbvia demais. Uma juventude sem ídolos, não consegue ser impulsionada por exemplos e, assim, tem poucas chances de gerar bons frutos, ou seja, craques que venham a se tornar novos ídolos, no futuro.

E foi sob a admiração de seus mais inesquecíveis ídolos que o esporte brasileiro ganhou destaque no cenário mundial. Fico pensando o bem que Pelé, Zico, Ayrton Senna, Oscar, Guga e tantos outros fizeram ao imaginário de inúmeras crianças que tiveram a felicidade de optar pelo esporte, a trilhar pelo amargo caminho das ruas, tudo por conta do amor que tinham por seus ídolos.

No âmbito profissional, não é diferente! Foram muitos os profissionais que figuraram em minha lista de exemplos a seguir. Tanto no aspecto técnico, ético e humano, tive a felicidade de conhecer e conviver com muitos daqueles que hoje, sem dúvida, considero meus ídolos da profissão.

Na área contábil, o maior deles foi Antônio Lopes de Sá. Um gênio das ciências contábeis e da humildade, que lia meus artigos e dizia: “…Parabéns! Você tem muito talento. Continue assim mas, antes, vamos rever alguns conceitos…”. E aí ele, ao seu jeito, sugeria mudanças no meu texto, de uma maneira tão peculiar que, mesmo sendo corrigido, me fazia ficar feliz da vida!…

Certa vez, no início de minha carreira, conheci Elmo Lopes da Cunha. Respeitado contador e advogado que gostava muito de ajudar os colegas, dando a sua interpretação da lei, pela facilidade maior que tinha com a hermenêutica. Ele era “perseguido” e admirado por todos. Pensei: “…preciso colar nele. Quero ser assim também…”. E, depois, ainda vieram Itamar Silva, José de Lima e tantos outros que dividiram comigo sua experiência e sua amizade.

No direito, também foram muitos os meus exemplos. Lembro do inesquecível Milton Murad que, com sua tenacidade e perspicácia, dava respostas inimagináveis aos problemas que a ele eram apresentados. Também aprendi muito com Oswaldo Bergi. Figura simples e carismática, de jeito manso e que ensinava com exemplos. Mais tarde, veio a se transformar em sinônimo de “direito tributário”, especialidade com a qual até hoje, ganho a vida.

Posso dizer, sem medo de errar, que o sucesso profissional de uma pessoa que não possua ídolos, é muito mais difícil. Da mesma forma, em uma visão mais ampla, reside aí a grave crise de identidade que hoje vive o Brasil. Afinal, não se pode esperar muito do desenvolvimento social e humano de um cidadão que não teve bons exemplos a seguir nem de seus familiares e, muito menos, de seus governantes.

Mas, voltando ao profissional, por ironia da vida, muitos anos depois, acabei sendo agraciado com as Comendas “Elmo Lopes da Cunha” e “Itamar Silva”, as mais altas honrarias capixabas que um profissional da contabilidade poderia desejar. Aqueles que foram meus ídolos e amigos do passado, se eternizaram na estante de meu escritório, como reconhecimento pelo trabalho à classe.

Hoje, quando alguém me pergunta o que deve fazer para ter sucesso profissional, eu nem hesito e vou logo dizendo: primeiro, trate de arrumar alguns bons exemplos para ter em quem se espelhar e, depois, leve muito a sério os estudos.

O exemplo ainda é a melhor forma de ensinar e de formar uma pessoa. Ainda tenho muito a aprender e ídolos a seguir. Mas, pelo que a vida já me deu, sou grato a todos que, direta ou indiretamente, me influenciaram para que eu chegasse até aqui. Em especial, ao meu pai que, mesmo sem nunca ter tido a oportunidade de ver o que fez por mim, deixou a sua marca indelével na essência de tudo que faço.

 

* Haroldo Santos Filho é advogado e contador.

** Artigo de opinião publicado na Revista “EKLÉTICA”, ano I, Nº 1, MAIO 2015 – Coluna “Atirei o pau no gato”.

(revistaekletica@gmail.com)

Artigo_Lições_de_Ídolo_Revista_Eklética_Maio__2015

 

A boa educação sumiu. Vamos reencontrá-la?

Tuesday, November 19th, 2013

A educação está acabando. Como uma moribunda em seu leito de morte, a educação cívica sucumbe ao imediatismo, intolerância e falta de generosidade das pessoas.

Fico preocupado quando percebo que as coisas só passam a funcionar sob o manto da lei. A pessoa “fica” educada só porque uma lei assim determinou, sob pena de se ver obrigada a pagar uma multa.

Basta lembrar que antes da imposição legal, as pessoas fumavam em ambientes fechados, enfumaçando tudo, sem o menor constrangimento. Para não entrar no mérito de que o fumante passivo também tem a sua saúde ameaçada, me limito a dizer que o cheiro insuportável do cigarro, em roupas e cabelos, já justificaria a iniciativa própria do fumante em alimentar o seu vício bem longe de quem não fuma. Se não fazia assim era por falta de educação e, desta pecha, a lei bem que veio por lhe poupar.

Adoro cinema mas, confesso, ultimamente esta atividade tem sido uma incógnita para mim, dada a deseducação reinante em ambientes públicos. É um tal de gente falando alto (é…..conversando, mesmo!…), mastigando pipoca como se comesse um javali (vivo!) e pés bolinando impiedosamente a poltrona da frente, ou seja, a minha cabeça. Enfim, é toda uma sorte de incivilidades que mais parece uma gincana. Se você conseguir vencer todos estes obstáculos, vai ter a mínima chance de sentir algum prazer com a diversão principal: o filme.

E no trânsito, então! Uma amostra perfeita de quão grave é a doença que acomete a relação entre as pessoas. Tirando os xingamentos usuais, dirigindo um carro você terá a oportunidade de ver gente ultrapassando pelo acostamento, desrespeitando ordem de chegada, ignorando pedestres e furando sinal vermelho, fortalecendo a ideia de que nos tempos atuais, mais tem valido o “eu” do que o “nós”.

Agrava ainda mais este contexto, a crise moral que vivem algumas de nossas principais instituições, reduzindo a pó as poucas chances que ainda tínhamos de multiplicar atitudes positivas e saudáveis, com base em bons exemplos. Homens públicos, de há muito, transfiguraram o real significado de “conduta ilibada”, “decoro”, “coisa pública”  e “honestidade”.

Parece não estarmos diante de um dos melhores momentos da sociedade brasileira. Talvez, o mais indicado seja parar, pensar e preparar um recomeço em que frases como “bom dia”, “por favor” e “muito obrigado” possam voltar a ocupar lugar de destaque.

 

* Haroldo Santos Filho é advogado e contador.

** Artigo de opinião publicado no jornal “A Gazeta”, em 31 de outubro de 2013

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Democracia, pesquisa e voto

Thursday, November 8th, 2012

Parece que foi ontem que brasileiros idealizadores de um país livre e democrático, em guerra contra o poder, pagaram o preço da mudança. Hoje, graças a isso, podemos celebrar a cada dois anos, a festa da democracia, ao escolhermos nossos representantes do executivo e do legislativo, sob os olhos atentos de uma imprensa livre.

Nossa democracia, no entanto, parece viver o desconforto do limbo. Não tem mais o cheiro e a inocência de um recém-nascido, mas também não apresenta a necessária maturidade, deixando à mostra fragilidades viscerais. Dos vários vilões que contribuem para isso, ocupam destaque a nefasta desigualdade socioeconômica e o analfabetismo funcional de boa parte de nosso povo. Com eles, não há democracia saudável.

Esta peculiar realidade é que deveria pautar as pesquisas de intenção de voto, sob pena de acabarem protagonizando resultados, ao invés de apenas medi-los. É o famigerado voto útil que pode, sem dúvida, induzir incautos a trilhar pelo caminho apontado como mais próximo de vencer. Afinal, para muitos, teria algo mais terrível do que “perder” o seu voto?

Desde 1945, quando o Brasil viu a sua primeira pesquisa eleitoral publicada (IBOPE), nunca, este instrumento foi tão utilizado como ferramenta de marketing político e norteador de apoios, coligações e interesses partidários como presenciamos nos dias atuais. Um ótimo motivo para que se regulamentem as técnicas empregadas nas pesquisas de opinião em nosso país.

A importância e a utilidade de uma pesquisa publicada na mídia justificam, por si só, que ela tenha características científicas, cuja metodologia possa afastar construções interpretativas comprometedoras de uma pacífica escolha cidadã. Aí merecem especial atenção as altas e inconcebíveis margens de erro (4%) e a escolha não aleatória das amostras. A quinze dias de um pleito, por exemplo, também deveria ser proibida a publicação de pesquisas com margem de erro superior a 1%. Aumento de custos? Quem disse que zelar pela democracia é barato?

Trata-se de uma excepcional oportunidade para que institutos de transparência independentes possam chamar para si a responsabilidade de gerarem pesquisas eleitorais científicas e inquestionáveis. O atual momento brasileiro é especial e uma rara oportunidade para avançarmos, deixando para trás ranços que ainda seguram o crescimento desta nação.

* Artigo de opinião publicado no jornal “A Gazeta”, em 08 de novembro de 2012

Um par de tênis e nada mais (Marcio Caparica)

Friday, September 28th, 2012

 Um par de tênis e nada mais

Nosso repórter viajou aos Estados Unidos e tirou a roupa para participar de uma prova pelado. Nada de pudor, número de peito ou frequencímetro. Só muito balanço e diversão em uma corrida na qual short e camiseta não têm vez. Dispa-se dos preconceitos e saiba tudo que acontece quando se corre usando apenas um par de tênis

Por Marcio Caparica | Fotos Kirill Tokarev | Ilustrações Thales Molina

Redação engajada, essa da RUNNER’S WORLD Brasil. A turma costuma viver na pele as reportagens que publica na revista. A editora Patricia Julianelli fez três meses de tratamento para melhorar sua postura e contou para os leitores o efeito do experimento em sua mecânica de corrida. O diretor Sérgio Xavier descobre as corridas mais lindas do mundo vestindo a camisa da revista. O repórter Bruno Favoretto, que perdeu o movimento das pernas em um acidente há 12 anos, começou a correr por meio de um projeto da RUNNER’S e no ano passado completou a Maratona de Nova York em cima de sua cadeira de rodas.

Até que um dia a editora-assistente Julia Zanolli me perguntou: “Marcio, você não quer aproveitar sua viagem para os Estados Unidos e participar de uma corrida pelada para a gente?” Eu planejava cruzar a América de bicicleta e topei o desafio na hora. Essa pauta circula na redação desde o lançamento da revista, esperando a oportunidade certa e um repórter despudorado o suficiente para levar a ideia adiante. Encontramos uma prova que coincidia com a data da minha viagem — e eu não tenho qualquer problema em correr sem roupa. Tudo convergiu para fazer esta matéria acontecer. No meio de tanta gente dedicada, como dizer não?

Como viemos ao mundo

A tarde estava ensolarada quando peguei um táxi até o local da prova, próximo à cidadezinha de Palmerton, na Pensilvânia (EUA). O motorista, ainda no meio do caminho, comentou: “Sabe que tem um resort onde todo mundo fica pelado nessa região aonde você está indo?” “Sei”, respondi. “E é para lá mesmo que nós vamos.” O rapaz arregalou os olhos e dirigiu visivelmente tenso pelos 20 minutos seguintes, até chegarmos ao nosso destino.

A prova escolhida foi a Bouncing Buns (“bumbuns balançantes”, em tradução livre), uma corrida de 7 km em trilha que acontece anualmente dentro do resort nudista Sunny Rest. Em 2010, na primeira edição da prova, foram 20 participantes. Dois anos depois, já éramos 161 corredores. Para não ser pego de calças curtas no dia da corrida, decidi chegar ao hotel um dia antes, a fim de garantir que estaria lá na manhã do evento. Quando o táxi chegou ao resort, pelados e peladas de todos os tipos e tamanhos curtiam o dia de calor ao redor da piscina. O motorista não sabia para onde olhar. Aceitou o pagamento com pressa, me deu o recibo já pisando no acelerador e foi embora sem olhar pelo retrovisor.

Fiz check-in ao lado de um casal que, sem roupa, tranquilamente comprava um refrigerante. O resort é grande, com extensos gramados, vários bosques, muitos trailers e nenhum pudor. Fui me instalar na área de camping e 20 minutos depois, com colchão inflável, saco de dormir e mochila guardados dentro da minha barraca para uma pessoa, dei adeus às vestimentas. A primeira coisa que fiz foi passar protetor solar por todo o corpo. Com uma toalha no braço (essencial para quem vai ficar sentando pelado por aí), óculos escuros na cara e chinelos nos pés, fui para a piscina aproveitar o resto da tarde. Não senti vergonha ao ficar nu, só um estranhamento por estar sem roupa fazendo coisas que normalmente costumo fazer vestido.

Depois de entrar no clima “menos é mais”, nadei, tomei um pouco de sol e comi um hambúrguer no bar. Ao meu lado, um coroa nu como veio ao mundo garantia a música ao vivo, dando novo significado para o termo “um banquinho, um violão”. No começo da noite, juntei-me a um grupo de dez ou 12 naturistas que já estavam havia algumas horas na jacuzzi. Lá, conheci um rapaz que também tinha ido ao resort para participar da corrida e, melhor ainda, já tinha feito a prova antes. “Você tem algum conselho para dar?”, perguntei. “Sim”, ele respondeu, sério. “Cuidado pra não cair.”

Por que correr pelado

Os naturistas são um grupo de pessoas que acreditam que fazer as coisas pelado permite que você tenha um contato mais próximo com a natureza. Então eles nadam pelados, jogam vôlei pelados, comem pelados, cantam pelados, jogam dominó pelados, veem filmes pelados, jogam tênis pelados, dançam na discoteca pelados… Então, por que não correr pelado? A quantidade de atividades que o resort oferece para você fazer sem roupa é impressionante. Só não pode encostar um no outro. Por mais que o senso comum pense o contrário, entre os naturistas a nudez não é encarada como uma coisa sexual.

As naked runs, ou corridas sem roupa, são realizadas em várias partes do mundo: lugares como Austrália, Inglaterra, Canadá, Finlândia e Espanha. Mas a grande maioria delas acontece nos Estados Unidos, onde esse tipo de prova já existe há muitos anos. Normalmente são percursos curtos e não é obrigatório correr pelado, embora a maioria dos atletas deixe shorts e camisetas de lado para participar. Segundo a Federação Brasileira de Naturismo, não existe nenhum evento desse tipo no país.

Número de pernas

O dia da prova amanheceu lindo e ensolarado. Era hora de testar se para correr você só precisa de um par de tênis — e nada mais. Sem roupa já há 15 horas, calcei meu pisante e fui me preparar para a corrida. Para começar, passei mais protetor solar, principalmente nas áreas tradicionalmente menos expostas ao sol. Depois, muito repelente contra insetos. Com tanta natureza ao redor, não queria acabar cheio de picadas, muito menos em regiões mais sensíveis. Para finalizar, vaselina entre as coxas para evitar assaduras. Pensei bem e resolvi aplicar porções generosas em todas as outras dobras das pernas para evitar o atrito. Depois de colocar os óculos escuros, percebi que não tinha onde prender o MP3, então fui sem música mesmo.

A inscrição para a prova começou às 9 da manhã, 1 hora antes da largada. Assim que dei meu nome e paguei a taxa, fui reconhecido como “aquele repórter brasileiro da RUNNER’S que está ligando para cá há semanas”. Virei uma minicelebridade “Então você vai correr sem nada, né?”, perguntou Ron Horn, o organizador do evento, rindo. Com uma caneta, ele escreveu na minha coxa esquerda o número de inscrição. Afinal, não daria para prender o número de peito em lugar nenhum.

Espalhados pelos gramados ao redor da concentração para a largada, dezenas de participantes se aqueciam para a prova. Alguns homens usavam suporte atlético (uma espécie de cueca mais cavada que ajuda a manter as coisas no lugar), algumas mulheres vestiam tops, mas a imensa maioria dos atletas estava completamente nua, não usavam nem a faixa de peito do frequencímetro. Corredores de todas as idades, quase todos homens, faziam tiros, conversavam entre si e se alongavam. Ah, o alongamento. Se você já ficou constrangido ao se inclinar para esticar as pernas, imagine o que é tentar alcançar os dedos dos pés sem nada para cobrir as nádegas.

Às 10 da manhã, debaixo de um sol ardido, todos os corredores se aglomeraram em frente à linha de partida, tentando ao máximo manter uma distância respeitosa uns dos outros. Mr. Horn fez um pequeno discurso sobre o recorde de participantes naquele ano, deu instruções sobre o percurso e anunciou a todos a presença do repórter da RW. Nada de tiro para anunciar a largada: em uma corrida como essa, o sinal para começar a correr foi dado quando o organizador abaixou as calças e disparou o cronômetro oficial. Lá se foram os bouncing buns.

Balança mas não cai

Inevitavelmente, a primeira coisa que você repara em uma prova sem roupa são as bundas. Dezenas e dezenas de bundas sacolejando à sua frente. Bundas grandes, bundas pequenas, bundas lisas, bundas peludas, bundas moles, bundas duras, bundas bronzeadas, bundas brancas, bundas com celulite, bundas sem bunda. Uma fileira de bundas a perder de vista. É tanta bunda que você às vezes se esquece do esforço que está fazendo para correr. Eventualmente, você é ultrapassado por uma mulher, mas a presença delas nesse tipo de prova é menor. Então você vê peitos, peitinhos e peitões, empinados e caídos, balançando a cada passada.

O trajeto era uma pirambeira. Os 7 km do percurso serpenteavam por todo o resort, começando no asfalto, mas logo subindo ladeira acima para entrar nos bosques. Aí o conselho do meu colega de jacuzzi fez sentido. Para este corredor urbano, acostumado com as poucas surpresas do asfalto, correr pelos desníveis de uma trilha entre árvores chega a ser uma experiência tão inovadora quanto correr sem roupa. Foram quase 4 km mato adentro. Cada tropeço numa raiz da trilha me fazia suplicar em silêncio para não rolar ladeira abaixo e me ralar dos pés à cabeça — literalmente.

Os quilômetros finais eram asfaltados, então a principal preocupação passou a ser o calor. O suor escorre e pinga livremente corpo abaixo, sem um elástico de short para detê-lo no meio do caminho ou uma peça íntima que o absorva. Não chega a ser desconfortável, mas é algo inédito. Peço perdão aos leitores e leitoras mais sensíveis para descrever outra sensação inédita. Normalmente, um homem se esquece do amigão lá embaixo durante a corrida — ele fica guardado, preso e protegido. Já numa corrida sem roupa, a história é outra. Nosso companheiro, livre e solto, se faz lembrar o tempo todo, saltando da esquerda para a direita nos trechos planos, pulando para cima e para baixo nas subidas e descidas. Doloroso? Não. Inesquecível, com certeza. Sempre entre as coxas, as bolas não chegam a ser um problema, mas agradeci o tempo todo pela vaselina extra que tive o bom-senso de aplicar.

Prêmios sem-vergonha

Ao fim de 43 minutos de corrida, cruzei a linha de chegada. Sem chip nem qualquer outro tipo de medição eletrônica, os organizadores conferiam os números nas coxas de quem chegava e gritavam o tempo para que outra pessoa anotasse. No resultado oficial do evento, apenas os nomes dos participantes, nada de sobrenomes. Depois da dispersão, os atletas trocavam impressões sobre a prova, tomavam isotônico, comiam frutas e comparavam resultados. Tudo muito parecido com uma prova de corrida tradicional, exceto pelo fato de que todo mundo estava pelado. O barato da serotonina, a satisfação de sentir o sol batendo no corpo todo, a alegria por ter completado uma prova tão divertida e o alívio de terminar a corrida ileso. Todas essas sensações compunham o clima festivo do pós-prova. Como a corrida era pequena, posso afirmar que todas aquelas pessoas estavam felizes, alegres por terem cruzado a linha de chegada e agora estarem compartilhando a experiência com outras pessoas com o mesmo alto astral.

Algumas horas mais tarde, na beira da piscina do hotel, os atletas se reuniram para a entrega dos prêmios, ainda com os números pintados nas coxas. Microfone em uma mão, resultados na outra, chinelos nos pés e nada mais pelo corpo, o organizador Ron Horn entregava troféus — um bebezinho engatinhando, pelado — para os participantes mais velozes de cada faixa etária. E previa, animado, que no ano seguinte eles haveriam de chegar a 200 competidores. Contente, agradeceu minha presença e me convidou a retornar no ano seguinte, algo que, sinceramente, eu adoraria fazer. De lembrança, ironia das ironias, ganhei uma camiseta da prova.

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