Archive for the ‘Atirei o pau no gato’ Category

Criança profissional

Thursday, August 26th, 2010

Quando criança, sempre fui levado. Sou do tempo em que, costumeiramente, se associava travessura ingênua, educada e infantil com inteligência e saúde. Certo ou não, sei que notas acima da média e uma razoável dose de indisciplina me credenciaram a ter a “sorte” de poder ter sido classificado como “bom aluno”.

Mas, por conta da agitada personalidade, no colégio Sacre-Coeur, de onde saí somente para fazer o pré-vestibular, visitei inúmeras vezes a sala da diretora, como forma de ser punido pelo comportamento menos ortodoxo, mas, veladamente, aguardado por todos.

Não que se devesse premiar a inquietude natural de uma criança, mas, reconhecer que é nesta fase de desenvolvimento que os limites são testados, alguns riscos são enfrentados e, inevitavelmente, é quando são conhecidas as reais consequências das decisões tomadas. Limites devem ser impostos, sem dúvida, mas alguns enfrentamentos fazem parte da lapidação do caráter de uma pessoa e, por isso, não devem ser ignorados.

Hoje, as coisas me parecem muito diferentes. Não falo de construtivismo piagetiano, de educação holística, tradicional, da teoria das inteligências múltiplas ou da teoria pedagógica das competências e habilidades, por mera falta de conhecimento. Limito-me a perceber que, a despeito de inúmeros avanços observados no campo do ensino, uma característica muito preocupante se sobressai: a criança tem se “profissionalizado” a cada dia. É como se estivessem deixando de ser “criança”, para serem “adultos em miniatura”.

Mas, mesmo assim, se você quiser se desincumbir da responsabilidade de pensar na educação de seu filho (como eu fiz), basta matriculá-lo no que houver de mais reconhecido como “excelência” em matéria de ensino. Para tanto, por uma bagatela anual de R$ 30 mil, seu filho vai estudar das 8 às 19 horas, aprender 3 línguas além do português, vai fazer um esporte, estudar música, artes plásticas, artes cênicas, pensar em mercado de trabalho, bolsa de valores, sem prejuízo ao tradicional programa do ensino fundamental. E, tudo isso sem ainda ter chegado à puberdade. Depois de uma longa jornada, resta dormir e se preparar para o dia seguinte, igualmente, exigido.

Para um futuro cidadão que precisará competir para conseguir espaço no disputado mercado profissional, estou certo de que tais características de ensino devam encontrar ótima serventia. Mas, e quanto à pessoa?! Até que ponto vale o esforço e a pesada supressão de sua infância? E, quanto aos rigores no trato comportamental que mais se parecem com caricatas rotinas de quartel? E o que mais pesa em minha consciência é que apesar destas dúvidas, ainda me sinto muito confortável em saber que fiz esta conveniente escolha. Egoísmo de minha parte?! Ou seria só ingnorância!?…

Ontem, meu filho, constrangido, me entregou um documento que deveria ser assinado por mim e devolvido por ele, à escola. Tratava-se de uma espécie de advertência, se bem pude entender nas más escritas linhas. Informava que o garoto havia se envolvido, pasmem, “em situação de transgressão do(sic) educacional”(!!!). O documento é finalizado solicitando que os pais continuem as orientações em casa porque, caso contrário, em recorrência, “outras medidas” seriam tomadas contra o aluno.

Devo dizer que, sem pestanejar, fiz a lição de casa sugerida pela caríssima pedagogia. Assinei o documento e o repreendi pelo fato reportado, muito embora, pela sua própria explicação, o ocorrido não teria passado de mera fatalidade. O que no direito chamamos de culpa, sem a intenção (dolo). Pode ser, mas, sabe como é criança, não é?! Pelo sim, pelo não, dei crédito à instituição de ensino e pedi a ele que atentasse para que o lamentável episódio não mais se repetisse.

O medo de pecar pela danosa superproteção do filho, em mim, foi maior do que o de ter sido injusto. Fiquei pensativo sobre isso e me perguntando se teria agido corretamente. Até que tocou o telefone e antes mesmo de eu atender o cliente, não resisti à tentação e racionalizei: “…afinal, o que é que eu entendo de ensino? Ainda mais sabendo que pelos padrões desta escola eu mesmo deixaria de ser o agradável “bom aluno” que fui, passando a ser um desprezível “transgressor”. Eles devem saber o que fazem...”.

Pois, assim espero!

HSF

Inexorável “melhor idade” (#melhoridade)

Thursday, July 22nd, 2010

A gente não se dá conta de que está envelhecendo até que as primeiras “limitações” físicas, surgidas por conta da “melhor idade”, comecem a dar sinais de vida.

Na verdade, é a inexorabilidade que nos arremessa contra uma parede branca, com os dizeres: “Aproveite enquanto pode, meu velho, a sua existência material é finita!“. Quando a pancada é bem dada, a gente acredita logo, é começa a viver a vida de outro jeito. Caso contrário, se continua a perder tempo com bobagens…

Convenhamos, ninguém que esteja livre de interdição pode gostar de envelhecer.  Mas, mesmo assim, um dia desses eu estava tentando elencar as vantagens de se ficar mais velho, ou melhor, de começar a sentir dores no corpo que nunca imaginou existir, de levantar para fazer fazer xixi umas 5 vezes toda noite, de ver a memória começando a falhar, de se acalmar sexualmente *, isso para ficar com poucos bons exemplos…rsrs

Depois de muito pensar, cheguei à primeira e, para mim, mais importante vantagem de caminhar para a melhor idade: é que a outra alternativa é muito pior, né?! Ou você envelhece ou…

Empolgado com a descoberta, parti logo para a segunda vantagem quando fui interrompido por uma música que tocava no rádio, “a vida tem dessas coisas“, cantada pelo Ritchie. Parei tudo e só curti. Foram 4 minutos de muitas e boas lembranças. Memórias vivas que só poderiam ocorrer em que já tivesse vivenciado alguma história de vida.

Caiu a minha ficha. Claro! A outra grande vantagem de se envelhecer é o significado amplificado que passam a ter as coisas. Até o “ouvir” uma música pode se transformar em uma experiência fabulosa como, de fato, foi. E a coincidência de tocar Ritchie não poderia ter sido mais adequada, pois ao relançar seus antigos sucessos, o cara se redescobriu, ficou novo em folha, exatamente, como todos deveríamos fazer, de tempos em tempos.

Então, se você já tem seus “quarentinha” ou mais, aproveite a música ou qualquer situação que lhe traga a tona bons e significativos sentimentos. Depois, renove-se para os seus novos desafios. É isso que vai mantê-lo vivo!

Mas, se você ainda não tiver chegado lá, fique tranquilo. Não apresse nada porque quando você menos esperar, sem que ninguém entenda o motivo, também estará se emocionando com as deliciosas trivialidades do cotidiano. Quando isso acontecer, seja bem vindo ao clube!

* que fique claro: não é o meu caso (ainda!).

HSF

Video 1: “A vida tem dessas coisas” (Ritchie)

Video 2: “Menina veneno” (Ritchie)

Eu sobrevivi a Auschwitz…

Thursday, July 15th, 2010

Teve gente que se indignou com a idéia, mas não adiantou muito. A artista plástica australiana Jane Korman, judia, criou um video chamado “dancing Auschwitz” e o disponibilizou na internet, causando o maior rebuliço na mídia .

A produção é interessante porque, de forma simples e objetiva, tenta desmistificar o terrível holocausto ocorrido na segunda guerra mundial. Fazem parte do video a própria Jane, juntamente com o personagem principal, seu avô, Adolek Kohn (89 anos), sobrevivente dos campos de concentração nazistas, que também contracena com mais três netos.

Eu já tinha visto esta música da Gloria Gaynor (I will survive) em aplicações bem mais despretensiosas que esta mas, confesso que também gostei muito desta sacada. Embora a gente sempre queira apagar da memória este deplorável episódio da história recente da humanidade, não deixa de ser uma visão diferente do acontecido.

Na minha opinião não se trata de desrespeito, como alguns entenderam. Liberdade poética de quem viveu aquele momento, talvez…

PS: É bom aproveitarem antes que tirem do ar….a autora do video não deve ter pago direitos autorais pelo uso da música….rsrs…

PS1: Já tiraram do ar….(rsrs)! Agora, resta a versão sem a música da Gloria Gaynor…

HSF

Na próxima copa o Brasil terá reforço do além

Thursday, July 8th, 2010

Podia ser exagero (tomara), mas estava tendo um mau pressentimento quanto à realização da próxima copa aqui no Brasil, em 2014.

As autoridades parecem não estar falando a mesma língua e os estádios (palco do show), no mínimo, clamam por reformas. Sem contar que São Paulo, nossa maior cidade, está longe de se credenciar para a abertura do evento por não ter estrutura….feia a coisa…..

Não bastasse tudo isso, ainda me lançam uma logomarca estranhíssima. Poderia simplesmente dizer que não gostei, mas do alto de minha qualificação tacanha de “designer”, resolvi analisá-la  ”tecnicamente”.

No início de minha isenta e competente avaliação, pude dizer que o desenho era simplório (rs).  O traço característico mais parecia feito por uma criança. Mas, continuei analisando… ainda havia uma descoberta a ser feita….

Até que acabei compreendendo. É o Chico Xavier, pô!! Claro!! Podem olhar… Fizeram uma logo que é a cara do Chico psicografando, pra ver se conseguimos atrair bons fluidos em 2014.

Agora sim! Não vai ter pra ninguém. Mick Jagger não, podem mandar os Rollings Stones todos, pois nós vamos estar com o corpo fechado para estas mandingas.

Parece até que já estou vendo o nosso ataque dos sonhos: Neymar, Ganso e Chico Xavier! O hexa não escapa…

HSF

Brasil, 2014…

Friday, July 2nd, 2010

É… o Brasil perdeu! Brasil 1 x Holanda 2. Laranjada azeda e sem adoçante.

Particularmente, não gosto de ver jogo na presença de ninguém. Gosto de silêncio para conseguir ouvir as bobagens do Galvão Bueno, acompanhar todos os momentos da partida e deixar todas as emoções a que estamos sujeitos, vendo jogos da copa do mundo, entre quatro paredes (além das outras coisas triviais que ainda fazemos entre quatro paredes…rs…). Se o Brasil ganha, aí sim, vamos comemorar em conjunto, com os amigos. Se perde, como aconteceu hoje, o melhor é abstrair e lembrar da vida real.

Quando jogam dois grandes times tudo pode acontecer. E aconteceu, mesmo. A Holanda nos deu uma bela pregada (mereceram!), tirando a seleção brasileira das quartas de final. Eliminação esta, exatamente do mesmo tamanho que havia sofrido a seleção do Parreira em 2006.

Não tenho nenhuma pretensão de ser comentarista de futebol, até porque me falta competência. Mas, convenhamos, a seleção foi para o vestiário no intervalo do primeiro tempo, ganhando por 1 x 0, convicta de que já estava na semifinal. Resultado: se o jogo já estava ganho, pra que jogar? Psicologicamente perturbados, a seleção apática se entregou.

E agora, o que fazer? Dar continuidade aos projetos pessoais, como se nada tivesse acontecido. É triste, dada a importância que o brasileiro dá ao futebol da copa do mundo. Mas, paciência…

Vida que segue, com uma enorme vantagem: sem aquela praga chamada “vuvuzela”!…

HSF

Humor negro…

Thursday, July 1st, 2010

Esta “pérola” do humor negro, eu tirei do twitter (fabio modena):

“O Dunga deveria substituir o Júlio César (goleiro) pelo Bruno do Flamengo (também goleiro), principalmente nesta fase de mata-mata (Copa do Mundo)”

Sacanagem, hein!?…rs…..Isso tudo por causa do imbróglio em que, aparentemente, se meteu o flamenguista….

HSF

Comendo a bola?

Thursday, July 1st, 2010

Como disse, a seleção da Alemanha, desta copa, tem enchido os olhos de quem aprecia futebol.

Dizem, inclusive, que na despedida da Seleção Alemã, pouco antes de partirem para a África, o grande e respeitado kaiser Franz Beckenbauer, desejou a todos muito boa sorte, dizendo que queria ver todo mundo “comendo a bola” no mundial.

Poxa, tô achando que o técnico da Alemanha Joachim Löw levou muito à sério o desejo do ídolo alemão….Irrrhhhhh…..

HSF

Eu vejo o “Big Brother”

Friday, February 5th, 2010

dicesar_atireiopaunogatoO título deste post soa como uma envergonhada confissão. Fazer o quê? Eu vejo “Big Brother” e ponto! Eu sei que desagrado a todos os meus amigos intelectuais (…e também àqueles que são só “metidos” a intelectuais…rs….) que consideram o programa uma perda de tempo, anticultura, um exemplo de mau uso da televisão. Os mais radicais acham até que caberia uma ação civil pública para tirar aquela “merda” do ar…

Bom, começo minha defesa lembrando o óbvio (rs): gosto não se discute! Além disso, saio em defesa do BBB, pelo menos, quando para me sacanear, os intelectuais de plantão o comparam com novelas, programas de auditório, Faustão, Luciano Huck e toda sorte de porcarias à nossa disposição na programação da TV nacional. Chegaram ao cúmulo de compararem o reality show com o Programa do Raul Gil……ahhh….. tenha a santa paciência…..assim, dá até vontade de mandar pra PQP, aproveitando a rima rica contida no nome do apresentador de microfone dourado…

Voltando à defesa, tais comparações não têm sentido, salvo melhor juízo. Parece coisa de quem está exercitando puro preconceito ou de quem nunca parou para ver. É o mesmo que dizer “não gosto daquela comida, mas nunca comi”. O BBB é curioso por se tornar uma atração construída com base no comportamento de indivíduos diferentes, às vezes, muito diferentes. Se “cada cabeça é um guia”, imagine o que não pode sair de um programa deste, principalmente, quando se trata de aparições “ao vivo”. A gente fica vendo tudo, em tempo real, sem cortes e sem máscaras.

Gosto do BBB porque se consegue perceber que os participantes até tentam dissimular, esconder sentimentos e pretensões mas, por pouco tempo. Logo a gente entende como cada um pensa, o que agrada e o que desagrada cada elemento. E o mais incrível é que, nas eliminações, o público quase sempre escolhe pra sair exatamente aquele que “estava merecendo”, conforme senso comum.

É comum desenvolvermos uma certa predileção por alguns “moradores da casa” pelos quais, naturalmente, passamos a torcer. Nesta edição, por exemplo, tem o Dicesar Ferreira (ou “Dimmy Kieer” para os íntimos ou “Linda Mona Luxo” para os pra lá de entendidos…rs) que se destaca entre os que estão na minha torcida. O cara é uma figura. Homossexual assumido e Drag Queen de profissão, Dicesar esbanja simpatia e solta tiradas de rolar de rir. Para melhorar ainda mais a distração, o “mona” tem a língua presa, ou melhor “peguesa”!

Ontem, no programa ao vivo, em horário nobre, provavelmente, com pico de audiência, a gente via uma prova para disputa da liderança da casa. O apresentador Pedro Bial explica a prova, dizendo que quando ele dissesse “já” era para todo mundo sair correndo e apanhar o máximo de garrafas de refrigerante de 600 ml de Guaraná Antártica Zero (patrocinador pesado). No meio da prova, quando descobre que estava pegando as garrafas erradas (a de 2 litros), Dicesar nem pensa duas vezes e exclama: “….ai, é a pequenininha CAGALHO….!!!!…..“. Vocês entenderam o “cagalho” ou vou precisar traduzir? Aí, eu pergunto: em que situação seria possível vermos algo parecido? Foi muito engraçado….

Assim, a título de sugestão, peço aos queridos intelectuais, que enobrecem o meu virtuoso círculo de relacionamento, que assistam um pouquinho o BBB, antes de opinarem. Procurem valorizar o viés psicológico do programa. Tenho certeza de que vão encontrar lá exemplos de comportamento contidos e previstos em obras clássicas, de autores como Maquiavel, Freud, Nietzche, Smith, Engels, Marx, Montesquieu, etc… Com isso, certamente vão conseguir assistir ao programa, sem pesos na consciência, limitando seu conteúdo à uma mera distração, nada mais. Cuidado pra não se tornarem fãs…

Mas, de tudo, o que posso assegurar é que, no mínimo, vocês vão rir pra “cagalho” e isso é o que mais interessa…..rs….ou não é!?….

HSF

Trekking ES Sul – do papel para a história…

Tuesday, February 2nd, 2010
Eu na praia de Marobá
Eu (praia de Marobá)

…É rico, é pobre, é feio, é bonito, é branco, é preto, não interessa! No final, vai todo mundo pro mesmo buraco… prlroo burlraaacoo…..” . Esta autêntica filosofia de botequim foi dita, em voz bastante alta e arrastada, por um inofensivo “bebum” que passava ao nosso lado, enquanto tomávamos uma água de coco bem gelada, de frente à bonita praia de Marobá (sul do Espírito Santo), iluminados por uma espetacular lua cheia e pelo gratificante sentimento de dever cumprido, ao vencermos a primeira etapa de nosso trekking, completando 12,5 Km, em 4 horas e meia de caminhada pela praia. A sexta-feira já estava no fim. Era quase hora de dormir e se preparar para o dia seguinte…

Este trekking foi todo planejado com o uso do Google Earth (para baixar roteiro clique aqui). Com a providencial ferramenta, foi possível mapear nosso ponto de saída, praia das Neves (extremo sul do estado do Espírito Santo), calcular o tamanho aproximado das duas “pernas” de caminhada (entre 10 e 15 Km, cada) e escolher os pontos de apoio, ou seja, locais prováveis para que pudéssemos chegar, tomar banho, comer alguma coisa, apreciar ligeiramente as características locais e, claro, desmoronar o esqueleto em alguma cama honesta, para aprontá-lo para o dia seguinte de programação.
Manguezal - Marco zero

Manguezal - Marco zero

caminho deserto 1

caminho deserto 1

caminho deserto 2

caminho deserto 2

caminho deserto 3

caminho deserto 3

Falésias e beleza natural

Falésias e beleza natural

Falésia - chegada estava próxima

Falésia - chegada estava próxima

Garças - presença constante

Garças - presença constante

Lagoas: presença constante ao longo do caminho

Lagoas: diversas ao longo do caminho

companhia: especial e inspiradora

companhia: especial e inspiradora

O sul do Espírito Santo mostrou-se, realmente, muito bonito. Logo na saída do Trekking, no extremo sul do estado do Espírito Santo, avistamos a divisa geográfica entre nosso estado e o estado do Rio de Janeiro, o rio Itabapoana. Pouco depois do local em que desemboca o rio, nas areias brancas da praia, antes da movimentação natural (quiosques e banhistas) da praia das Neves, foi nosso local de partida. Foi nosso marco zero!

A primeira etapa, não foi nada fácil. Vento forte contra, sol escaldante e uma severa inclinação na areia, eram fatores a serem superados neste trekking. Além disso, a areia era bastante (,) fofa. (..aliás, para distrair e sacanear os outros, a gente colocava uma vírgula, entre o “bastante” e o “fofa”, sempre que se referia ao estado da trilha…..rs….falta do que fazer….).

Foram 12,5 Km de uma imensidão de areia e mar, boa parte, completamente deserta. Uma verdadeira terapia. Nos primeiros 3 Km, é um falatório só. Depois, um silêncio avassalador (…só se ouve o vento e o mar, imponentes!…). É quando a gente se encontra com a nossa consciência e faz as pazes com tudo aquilo que nos traz felicidade e tranqüilidade. É quando vemos que precisamos de muito, mas muito pouco para sentirmos alegria de viver. É aí que vemos como temos nos violentado, em nosso dia-a-dia, numa corrida de “ratos” maluca, à procura de algo (..nas coisas, no consumo…) que já está em nós….

amigo canino: uma grata surpresa!

amigo canino: uma grata surpresa!

"siri" - sempre vigilante

"siri" - sempre vigilante

Esta primeira etapa de nosso trekking teve um personagem único e inusitado. Quando passávamos em frente à praia das Neves, um cão alegre se aproximou, balançando o rabo. Como nós não o espantamos (…coisa que outros deviam fazer…), ele se juntou ao grupo. Pensei que fosse andar um pouquinho só ao nosso lado e depois voltar para a vila. Engano meu! O bichano nos acompanhou por toda a primeira etapa. Caminhou conosco, mais de 4 horas, até chegarmos na praia de Marobá.

O mais curioso era a sua atividade predileta. Ele avistava ao longe um siri branco de praia (…também conhecido como guruçá…), corria atrás, cercava, latia e tentava pegar com a boca sua “presa”, até que ela conseguisse fugir pro mar. Daí a pouco, fazia tudo de novo, quando enxergava um novo infeliz morador daquelas areias. A gente percebeu que ele não tinha intenção nenhuma de machucar o siri (…embora talvez o fizesse, às vezes…rs…). Era pura diversão. Aquele cachorro tinha personalidade e sabia o que queria. Impressionou a gente, pela sua independência e felicidade. Ficamos amigos e pra não chamar um amigo de “cachorro”, demos a ele um nome bastante sugestivo: “Siri”.

Pousada Baleia Branca: honesta

Pousada: honesta

Chegamos na praia de Marobá, cansados, mas muito contentes com o feito. Ficamos hospedados na Pousada Baleia Branca. Um local super limpo, honesto em tudo e cujos proprietários são gente (de Juiz de Fora (MG)), simples e acolhedora, a Carla e o Sr. “Tchê” (pai) (Pousada Baleia Branca – (28) 3535-4099 – Marobá e (32) 3237-9272 – Juiz de Fora / Diárias com café da manhã custam em torno de R$ 80,00/US$ 43,00).

Em Marobá, ainda de “gruja”, acompanhamos um evento muito interessante: Marobá Acro Brasil: I Etapa do Circuito Brasileiro de Acrobacias de parapente. Parecia um evento internacional, pela quantidade de “gringo” fazendo graça com os parapentes no ar. Só tinha fera. Quem imaginaria que encontraríamos essa atração lá, não e mesmo!? A própósito, a Prefeitura de Presidente Kennedy está de parabéns pelo investimento que tem feito em seu verão. Muito legal e vale a pena conferir.

No dia seguinte, o mais cedo possível (…rs…), partimos para a realização da segunda etapa do desafio. Não tínhamos mais a companhia de “Siri”. Quem sabe ele tenha encontrado novos “amigos” e novos destinos, que satisfizessem àquele seu invejável espírito livre? (…desejamos ao “Siri” boa sorte!…). Apesar disso, consideramos um trecho mais tranqüilo. As baías eram menores, a areia não era mais tão fofa e o trajeto não se apresentava tão inclinado como antes. Também começamos a ver lindas falésias e pedaços de mata de restinga intocável. Foi um espetáculo. Fizemos os 11 Km em 3 horas e meia. Chegamos triunfantes ao Camping do Siri, nosso destino final. Lá, já tínhamos nossas reservas, na pousada, registradas. Foi lá que, há dois dias, havíamos deixado o carro e fomos levados de táxi para o extremo Sul do Estado. Aliás, o motorista foi o Sr. Delci ((28) 9883-0849/3532-4180 – corrida custou R$ 90,00/US$ 48,00). Sujeito prestativo e falante. Tenho certeza de que terá o maior prazer em levar outros andarilhos para a saída na trilha, que descobrimos. No Espírito Santo, certamente, é o ponto mais ao sul, pertinho do mangue que margeia o rio Itabapoana.

Passamos à noite de sábado rindo à toa e, sempre, regada à água de coco, vinho e cerveja (…muito chato….rs…). No domingo, ficamos de molho o dia todo, aproveitando a ótima praia do siri, de frente ao Camping. O corpo doía, mas a alma estava radiante! Lembrei da frase célebre muito usada por maratonistas: pain is temporary, proud is forever (a dor é temporária, o orgulho é para sempre).

Eu já sabia, mas para os que se aventuraram pela primeira vez, foi uma constatação de que fazer um trekking é algo extremamente gratificante. Lava a alma e nos leva a diversas reflexões. Desde a nossa insignificância diante da grandeza da natureza ao valor das pequenas coisas, dos gestos mais simples, nada passa despercebido, após horas caminhando numa praia deserta. É comum a gente perceber que costuma complicar as coisas. A nítida impressão que temos é que a vida podia ser mais fácil. Enfim, trekking é tão bom que não podemos passar muito tempo sem uma nova programação. Breve, faremos novas caminhadas e, quem sabe, conseguimos cobrir toda a costa do Espírito Santo em menos tempo do que se possa imaginar, não é mesmo!? Tenho certeza: companhia é o que não vai faltar…rs….

Costumo dizer que você nunca termina um Trekking, exatamente como começou (…não me refiro aos naturais calos e bolhas no pé….). Ao final, os laços de amizade, entre as pessoas que participam, se reforçam e nossa auto-estima se reconstitui. A gente vê que ali, na trilha, todo mundo parece igual diante do mesmo desafio assim como sempre deveria ser, fora dali. Afinal, de fato, somos todos muito parecidos em nossos anseios, medos, desafios e desejos. Foi quando lembrei do início deste post, do recado daquele “bebum” de Marobá e, pensei:e não é que o ébrio tem razão?!….rs….

É desse jeito!!!…..

HSF

Rui Barbosa e a injustiça

Wednesday, January 20th, 2010

Outra boa passagem do letrado Rui Barbosa, desta feita, registrada oficialmente nos anais do Senado brasileiro, por ocasião de um de seus discursos naquela Casa. É de impressionar como o conteúdo de sua fala reverbera até os nossos dias com a mais absoluta modernidade e adequação à nossa triste realidade sócio-cultural.

É uma verdadeira crítica àquela velha tônica de que as pessoas precisam sempre se dar bem em tudo, ainda que, de forma desonesta e desonrosa. A famosa “lei de Gerson” já existia naquele tempo, só que com outros nomes.

O discurso chama a atenção para o cada vez mais presente exemplo em que, algumas pessoas, chegam a se envergonhar de terem agido de forma a ser classificada, pelo senso comum, como “honesta”. É como o caso de pessoa simples que devolve carteira recheada de dinheiro. Pela notória inversão de valores a que estamos todos submetidos, tal ato, ao invés de ser aplaudido, pode até ser criticado por iguais que, indignados com a tamanha “burrice” e desaforo de alguém devolver dinheiro achado, quando dele tanto se precisa.

Rui Barbosa já tinha visto isso…

HSF

 

“O Sr. Rui Barbosa - A falta de justiça, Senhores Senadores, é o grande mal de nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta nação.

A sua grande vergonha diante do estrangeiro é aquilo que nos afasta dos homens, os auxílios, os capitais.

A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêem nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agitarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto…..”