Archive for the ‘Cotidiano’ Category

Criança profissional

Thursday, August 26th, 2010

Quando criança, sempre fui levado. Sou do tempo em que, costumeiramente, se associava travessura ingênua, educada e infantil com inteligência e saúde. Certo ou não, sei que notas acima da média e uma razoável dose de indisciplina me credenciaram a ter a “sorte” de poder ter sido classificado como “bom aluno”.

Mas, por conta da agitada personalidade, no colégio Sacre-Coeur, de onde saí somente para fazer o pré-vestibular, visitei inúmeras vezes a sala da diretora, como forma de ser punido pelo comportamento menos ortodoxo, mas, veladamente, aguardado por todos.

Não que se devesse premiar a inquietude natural de uma criança, mas, reconhecer que é nesta fase de desenvolvimento que os limites são testados, alguns riscos são enfrentados e, inevitavelmente, é quando são conhecidas as reais consequências das decisões tomadas. Limites devem ser impostos, sem dúvida, mas alguns enfrentamentos fazem parte da lapidação do caráter de uma pessoa e, por isso, não devem ser ignorados.

Hoje, as coisas me parecem muito diferentes. Não falo de construtivismo piagetiano, de educação holística, tradicional, da teoria das inteligências múltiplas ou da teoria pedagógica das competências e habilidades, por mera falta de conhecimento. Limito-me a perceber que, a despeito de inúmeros avanços observados no campo do ensino, uma característica muito preocupante se sobressai: a criança tem se “profissionalizado” a cada dia. É como se estivessem deixando de ser “criança”, para serem “adultos em miniatura”.

Mas, mesmo assim, se você quiser se desincumbir da responsabilidade de pensar na educação de seu filho (como eu fiz), basta matriculá-lo no que houver de mais reconhecido como “excelência” em matéria de ensino. Para tanto, por uma bagatela anual de R$ 30 mil, seu filho vai estudar das 8 às 19 horas, aprender 3 línguas além do português, vai fazer um esporte, estudar música, artes plásticas, artes cênicas, pensar em mercado de trabalho, bolsa de valores, sem prejuízo ao tradicional programa do ensino fundamental. E, tudo isso sem ainda ter chegado à puberdade. Depois de uma longa jornada, resta dormir e se preparar para o dia seguinte, igualmente, exigido.

Para um futuro cidadão que precisará competir para conseguir espaço no disputado mercado profissional, estou certo de que tais características de ensino devam encontrar ótima serventia. Mas, e quanto à pessoa?! Até que ponto vale o esforço e a pesada supressão de sua infância? E, quanto aos rigores no trato comportamental que mais se parecem com caricatas rotinas de quartel? E o que mais pesa em minha consciência é que apesar destas dúvidas, ainda me sinto muito confortável em saber que fiz esta conveniente escolha. Egoísmo de minha parte?! Ou seria só ingnorância!?…

Ontem, meu filho, constrangido, me entregou um documento que deveria ser assinado por mim e devolvido por ele, à escola. Tratava-se de uma espécie de advertência, se bem pude entender nas más escritas linhas. Informava que o garoto havia se envolvido, pasmem, “em situação de transgressão do(sic) educacional”(!!!). O documento é finalizado solicitando que os pais continuem as orientações em casa porque, caso contrário, em recorrência, “outras medidas” seriam tomadas contra o aluno.

Devo dizer que, sem pestanejar, fiz a lição de casa sugerida pela caríssima pedagogia. Assinei o documento e o repreendi pelo fato reportado, muito embora, pela sua própria explicação, o ocorrido não teria passado de mera fatalidade. O que no direito chamamos de culpa, sem a intenção (dolo). Pode ser, mas, sabe como é criança, não é?! Pelo sim, pelo não, dei crédito à instituição de ensino e pedi a ele que atentasse para que o lamentável episódio não mais se repetisse.

O medo de pecar pela danosa superproteção do filho, em mim, foi maior do que o de ter sido injusto. Fiquei pensativo sobre isso e me perguntando se teria agido corretamente. Até que tocou o telefone e antes mesmo de eu atender o cliente, não resisti à tentação e racionalizei: “…afinal, o que é que eu entendo de ensino? Ainda mais sabendo que pelos padrões desta escola eu mesmo deixaria de ser o agradável “bom aluno” que fui, passando a ser um desprezível “transgressor”. Eles devem saber o que fazem...”.

Pois, assim espero!

HSF

Na próxima copa o Brasil terá reforço do além

Thursday, July 8th, 2010

Podia ser exagero (tomara), mas estava tendo um mau pressentimento quanto à realização da próxima copa aqui no Brasil, em 2014.

As autoridades parecem não estar falando a mesma língua e os estádios (palco do show), no mínimo, clamam por reformas. Sem contar que São Paulo, nossa maior cidade, está longe de se credenciar para a abertura do evento por não ter estrutura….feia a coisa…..

Não bastasse tudo isso, ainda me lançam uma logomarca estranhíssima. Poderia simplesmente dizer que não gostei, mas do alto de minha qualificação tacanha de “designer”, resolvi analisá-la  ”tecnicamente”.

No início de minha isenta e competente avaliação, pude dizer que o desenho era simplório (rs).  O traço característico mais parecia feito por uma criança. Mas, continuei analisando… ainda havia uma descoberta a ser feita….

Até que acabei compreendendo. É o Chico Xavier, pô!! Claro!! Podem olhar… Fizeram uma logo que é a cara do Chico psicografando, pra ver se conseguimos atrair bons fluidos em 2014.

Agora sim! Não vai ter pra ninguém. Mick Jagger não, podem mandar os Rollings Stones todos, pois nós vamos estar com o corpo fechado para estas mandingas.

Parece até que já estou vendo o nosso ataque dos sonhos: Neymar, Ganso e Chico Xavier! O hexa não escapa…

HSF

Humor negro…

Thursday, July 1st, 2010

Esta “pérola” do humor negro, eu tirei do twitter (fabio modena):

“O Dunga deveria substituir o Júlio César (goleiro) pelo Bruno do Flamengo (também goleiro), principalmente nesta fase de mata-mata (Copa do Mundo)”

Sacanagem, hein!?…rs…..Isso tudo por causa do imbróglio em que, aparentemente, se meteu o flamenguista….

HSF

Rui Barbosa e a injustiça

Wednesday, January 20th, 2010

Outra boa passagem do letrado Rui Barbosa, desta feita, registrada oficialmente nos anais do Senado brasileiro, por ocasião de um de seus discursos naquela Casa. É de impressionar como o conteúdo de sua fala reverbera até os nossos dias com a mais absoluta modernidade e adequação à nossa triste realidade sócio-cultural.

É uma verdadeira crítica àquela velha tônica de que as pessoas precisam sempre se dar bem em tudo, ainda que, de forma desonesta e desonrosa. A famosa “lei de Gerson” já existia naquele tempo, só que com outros nomes.

O discurso chama a atenção para o cada vez mais presente exemplo em que, algumas pessoas, chegam a se envergonhar de terem agido de forma a ser classificada, pelo senso comum, como “honesta”. É como o caso de pessoa simples que devolve carteira recheada de dinheiro. Pela notória inversão de valores a que estamos todos submetidos, tal ato, ao invés de ser aplaudido, pode até ser criticado por iguais que, indignados com a tamanha “burrice” e desaforo de alguém devolver dinheiro achado, quando dele tanto se precisa.

Rui Barbosa já tinha visto isso…

HSF

 

“O Sr. Rui Barbosa - A falta de justiça, Senhores Senadores, é o grande mal de nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta nação.

A sua grande vergonha diante do estrangeiro é aquilo que nos afasta dos homens, os auxílios, os capitais.

A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêem nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agitarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto…..”

Carrinho valente

Friday, January 1st, 2010

Neste final de ano, aluguei um carro para passear com a família em uma conhecida zona turística rural do Brasil.

Diante de tanto veículo 1.0, daqueles que faz a gente passar raiva de 10 em 10 minutos, sabe-se lá porque, o escolhido foi o Chevrolet Prisma 1.4 Joy, já com 60.000 Km rodados.

Tirando a barulheira do painel (coisa solta), tive uma grata surpresa! O “carrinho” desenvolveu muito bem no asfalto e na estrada de terra (muito buraco, lama e cascalho) mostrou-se valente e resistente. Nem precisava, mas ele ainda foi bastante econômico, com uso predominante das marchas 3 e 4, no fora de estrada, fazendo até 11 Km por litro de álcool.

Aprovei!

HSF

O Brasil decolou?

Tuesday, December 8th, 2009

Brazil_Takes_offEm recente reportagem da revista “The Economist“, “Brazil takes off”, o Brasil foi apontado, definitivamente como a bola da vez, para desenvolvimento, riquezas e oportunidades.

A matéria enfatiza a redução dos riscos de investimento no país e todas as suas potencialidades. Deixa claro que agora o maior risco para a história do grande sucesso da América Latina é a arrogância!…rs…

Já em 2001, os economistas da Goldman Sachs inseriam o Brasil, juntamente com a China, Russia e Índia, no time das economias que dominariam o mundo, nos próximos anos.

Brazil_The_Economist_atireopaunogatoQuando veio a crise norte-americana, podemos dizer que tenha sido um grande teste para nós e também para aqueles economistas da Goldman Sachs. E se o Brasil não resistisse? Pois o que vimos foi uma inesperada reação de uma pujante economia que, se por um lado não conseguiu se livrar dos efeitos da crise, pode-se dizer que foi uma das últimas nações a entrar em crise e uma das primeiras a sair. Hoje, segue de novo, com crescimento econômico sinalizando uma ultrapassagem pela casa dos 5% anuais. Os economistas estavam certos. O “the economist” também está, principalmente quando aponta como um dos maiores riscos a “arrogância”. Todo mundo deve lembrar da declaração de nosso Presidente Lula, fazendo alusão a uma famosa “marolinha”….. kkkkk…melhor deixar isso pra lá.

Friedman_proximos_100_anosEm setembro deste ano, a editora Best Seller publica um polêmico livro do cientista político americano George Friedman, intitulado “Os próximos cem anos”. O autor é categórico ao afirmar que nos próximos cem anos não tem pra ninguém! Que Brasil, China, Rússia, Índia ou qualquer outro país que nada! Quem vai continuar dominando o mundo e fazendo dos outros “gato e sapato” são, exatamente, os Estados Unidos!!!! Será mesmo!?…

Não é a primeira vez que alguém publica livros premonitórios no campo da geopolítica, alguns inclusive, com o mesmo título relacionado aos “próximos 100 anos”.

Eu gosto muito dos Estados Unidos! Nunca resisti à tentação de ceder ao consumismo daquele povo. Aliás, sou um consumista declarado e controlado, mas sei que sou! Independente disso, percebo nítidos sinais de “fadiga” daquela sociedade. Já vi, inclusive, estudiosos afirmarem com todas as letras de que se trata de uma nação em plena decadência.

Mas, o Friedman não enxerga assim não. Ele justifica que apesar de ser americano, possui fortes argumentos para defender a idéia de que, assim como nossos pais, também nossos netos e bisnetos serão condenados ao fascínio encantado dos Ipods e dos Big Macs.

Fico a me perguntar, da mesma maneira que discuto futebol num boteco, sem nunca ter jogado bola na vida, como seria possível duas opiniões tão divergentes: uma que aponta a nação norte americana em franco declínio social e econômico e ascensão dos emergentes citados e outra que ignora tudo isso e diz que serão os americanos, como têm sido, os verdadeiros dominantes do próximo século???

Não torço, de forma nenhuma, para a concretização da decadência dos Estados Unidos, mas torço muitíssimo para que o Brasil possa ser a grande potência econômica que tantos esperam. Um país celeiro do mundo. Um país auto suficiente em recursos naturais e independente quanto à sua matriz energética. Um país sem fome, sem analfabetismo, com justa distribuição de renda e exemplares políticas de proteção ao meio-ambiente. Por isso, espero que o Friedman esteja redondamente enganado em suas previsões, no que tange à sua indiferença em relação ao Brasil. Sonhar ainda é possível, ou não!?…

De qualquer maneira, daqui a 100 anos a gente confere se o que ele convincentemente afirma era certo ou não.

Enquanto isso, tratemos de escolher melhor nossos representantes do executivo e do legislativo, pois o futuro é feito com base nas escolhas que fazemos hoje. E não há nada mais destrutivo para o sucesso de uma nação quanto à irresponsável eleição de seus gestores públicos.

HSF

Veríssimo: um gênio colorado

Saturday, December 5th, 2009

luiz-fernando-verissimo_atireiopaunogatoLuiz Fernando Veríssimo é mesmo um gênio! Sua última crônica, “Para voltar a crer”, publicada em vários locais, inclusive no Blog do Noblat, se traveste de uma profunda mensagem de repúdio às mazelas da humanidade e, ao final, deixa patente seu objetivo maior, a saber, uma “quase súplica” ao arqui-rival grêmio, para que ganhe o jogo contra o flamengo, amanhã, permitindo que o internacional, seu time do coração, tenha ainda alguma chance de ser campeão brasileiro. Vale a pena a leitura…rs…

Até que para um vascaíno, como eu, não seria uma má idéia….. então…… PRA FRENTE GRÊÊÊÊÊÊÊMIOOOOOOOOOO!!!!!!……….

HSF

Para voltar a crer

Não faltam motivos para descrer da Humanidade.
Vamos combinar que fizemos coisas extraordinárias, mas nossa passagem pela Terra não está sendo, exatamente, um sucesso.
Para cada catedral erguida bombardeamos três, para cada civilização vicejante liquidamos quatro, a cada gesto de grandeza correspondem cinco ou seis de baixeza, para cada Gandhi produzimos sete tiranos, para cada Patrícia Pilar dezessete energúmenos.
Inventamos vacinas para salvar a vida de milhões ao mesmo tempo que matamos outros milhões pelo contágio e a fome.
Criamos telefones portáteis que funcionam como gravadores, computadores — e às vezes até telefones — mas ainda temos problema com a coriza nasal.
Nosso dia a dia é cheio de pequenas calhordices, dos outros e nossas.
Rareiam as razões para confiar no vizinho ao nosso lado, o que dirá do político lá longe, cuja verdadeira natureza muitas vezes só vamos conhecer pela câmera escondida.
Somos decididamente uma espécie inconfiável, além de venal, traiçoeira e mesquinha.
E estamos envenenando o planeta, num suicídio lento do qual ninguém escapará. E tudo isso sem falar no racismo, no terrorismo e no Big Brother Brasil.
Eu tinha desistido de esperar pela nossa regeneração.
Ela não viria pela religião, que se transformou em apenas outro ramo de negócios. Nem viria pela revolução, mesmo que se pagasse para o povo ocupar as barricadas.
Eu achava que a espécie não tinha jeito, não tinha volta, não tinha salvação. Meu desencanto era total. Só o abandonaria diante de alguma prova irrefutável de altruísmo e caráter que redimisse a Humanidade.
Uma prova de tal tamanho e tal significado que anularia meu ceticismo terminal e restauraria minha esperança no futuro. E esta prova virá neste domingo, se o Grêmio derrotar o Flamengo no Maracanã.
Se o Grêmio derrotar o Flamengo, o Internacional pode ser campeão. Mas o mais importante não é isso.
Se o Grêmio derrotar o Flamengo mesmo sabendo as consequências e o possível beneficio para o arquiadversário, estará dando um exemplo inigualável de superioridade moral.
A volta da minha fé na Humanidade não interessa, Grêmio. Pense no que dirá a História.
Pense nas futuras geraçõ
es!”

Dirran é nosso!

Wednesday, September 16th, 2009

dirran_atireiopaunogatoSegundo as “boas” línguas, esta aconteceu de verdade, envolvendo um jogador brasileiro com nome “estrangeiro”…

DIRRAN – com o famoso “biquinho” para pronunciar num francês impecável – Jogador do Rio Grande do Norte meio agalegado ou sarará. Era entroncadinho e baixinho de pernas bem ágeis, mas muito curtas.

Há alguns anos, quando o Clube Atlético Potengi ainda jogava no Machadão contra o Potyguar de Currais Novos, na 2ª divisão do Campeonato do Rio Grande do Norte, um jogador atleticano se destacava fazendo dribles desconcertantes, lançamentos perfeitos e fazendo muito gol.

O narrador da Rádio Poti não cansava de gritar: “Dirran é um craque”, “Dirran é uma revelação do futebol norte-riograndense”. “Dirran breve na seleção brasileira”. E era Dirran prá cá, Dirran pra lá …

No final do jogo, o Clube Atlético Potengi perdeu por 3 x 1, mas, mesmo assim, o destaque daquele jogo tinha sido o jogador Dirran.

Vendo aquele sucesso todo do jogador atleticano, um jovem repórter da Rádio Poti foi fazer uma entrevista com o craque na beira do gramado e foi logo perguntando:

- Dirran, você tem parentes na França? Esse seu nome é de ascendência francesa?”.

O jogador, olhando espantado para o repórter, respondeu:

- “É não sinhô, é que meu apelido é Cú de Rã, mas como num pode falar na rádio… então, eles abrevia”.

Ahhh…bom!….rsrsrs….

Esta história já virou de domínio público na internet, sendo encontrada em diversos lugares, como no blog R2CPress. Nem por isso, deixa de ser uma piada pronta da melhor qualidade…

HSF

Vitória: cada dia mais linda!

Tuesday, September 15th, 2009

Vitoria_atireiopaunogatoEu amo Vitória! Os estudiosos costumam dizer que o amor é um sentimento que se apresenta em “cores” e formas distintas dependendo de como e com quem você se relaciona. Eu só espero que também tenham explicação para esta forte cumplicidade e incondicional amor que sempre nutri pela minha cidade natal.

Como nas pessoas que amamos, nas cidades, também encontramos defeitos, falhas, fragilidades e projetos inacabados, passíveis de críticas, naturalmente. Só que, embora saibamos terem fundamento, não nos sentimos à vontade quando ouvimos isso de algum “estranho” ou morador de outra cidade. Imaginem alguém chamando um filho seu (ou parente próximo) de “orelhudo”, por mais consciência que você tenha da referida deficiência!? Você não ficaria nem um pouco satisfeito, não é verdade!?

Lembro que, certa vez, ainda na condição de secretário municipal, do agradável município de Vila Velha(ES), em plena reunião de secretariado, foi inevitável criar um certo mal estar com o Prefeito Max Filho. Ora, ele abriu a reunião, irônico, achando muito engraçada uma carta de leitor publicada em “A Gazeta” que, em resumo, ridicularizava a nossa Capital. Não lembro dos detalhes, mas em linhas gerais, dizia que “Vitória era mesmo uma cidade maravilhosa pois suas duas vistas mais bonitas eram a do Penedo e a do Convento da Penha” (localizadas em Vila Velha), e que “as suas melhores praias começavam na Praia da Costa e iam muito além da linda praia de Itaparica…”, também, ambas em Vila Velha. Como NUNCA tive “papas na língua”, pedi a palavra e disse ao nobre Prefeito que um político com a sua ‘”estatura” e notória pretensão de exercer outros cargos estaduais (….governador, por exemplo, como sempre quis…), deveria medir as suas palavras ao criticar a Capital, bem como, evitar o obtuso fomento a bairrismos abomináveis entre cidades coirmãs. Tirando os muitos puxa-sacos de plantão que riam da piadinha, as demais testemunhas poderão afirmar o acontecido e confirmar que o “alcaide” não gostou nem um pouco de nossa intervenção.

Claro que não se podia esperar outra reação de uma cara que foi nascido e criado no bairro de jucutuquara (na “nação” jucutuquara), timidamente, torcedor do Rio Branco e da Escola de samba Unidos de Jucutuquara. Um cara que em sua biografia vai poder dizer que já tomou um inofensivo, mas crestado tiro de sal nas costas, ao ser flagrado por segurança do Museu Solar Monjardim, sobre um pé de manga, degustando a fruta “proibida”. Mais tarde fui saber, pela academia, que aquela arriscada aventura de menino, no direito, se chamava furto e invasão de propriedade….rs…Mas, honestamente, pergunto: como eu poderia ficar inerte ao terem falado mal de minha cidade, de minhas raízes?…

Para ser justo, a antiga luta dos Max em favor de sua terra (Vila Velha) tem um certo sentido. O fulcro central estaria na injusta distribuição de renda, entre os municípios, resultado de políticas tributárias parciais e tendeciosas, como o Fundap, por exemplo. Não comungo, plenamente, com esta tese, mas analisando os números, entendo perfeitamente a revolta dos “canelas-verdes”. No meu último ano no executivo de Vila Velha, o orçamento anual daquela cidade girava em torno de uns R$ 150 milhões, enquanto Vitória “brilhava” com um orçamento de uns R$ 850 milhões. Se considerarmos que a área de Vila Velha é 2,23 vezes maior do que a de Vitória e sua população supera 30% a da capital (só ilha), de fato, algo nos leva a crer que tal distribuição mereça uma mais justa revisão.

Vitoria_atireiopaunogato_2Independente da polêmica de que Vitória seria mais fácil administrar por ter mais dinheiro (o que discordo!), devo salientar que tivemos sorte, muita sorte, em nossos últimos chefes de executivo municipal. Que tenham marcado a minha lembrança, iniciaria o “pacote” de mudanças significativas em nossa querida Vitória, a partir da gestão do Dr. Vitor Buaiz que, embora esquecido, fez uma gestão elogiável. Depois veio Paulo Hartung, cujas inovações (principalmente sociais) foram seguidas e saudavelmente ampliadas pelo Prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas. Luiz Paulo foi e é um dos políticos mais inteligentes que tive a oportunidade de ver atuando. Mesmo aparentemente “indisciplinado” (no jeito de ser), em suas falas, sempre teve sacadas, verdadeiramente, geniais. (Só perde para o PH, na capacidade de se articular e colocar “vascaínos e flamenguistas” do mesmo lado: do seu! rsrsrs…).

Mais recentemente, o Prefeito João Coser, um merecido retorno do Partido dos Trabalhadores ao Governo Municipal. Sou suspeito para falar da gestão de João (..fui subsecretário e secretário em sua gestão), mas posso dizer que quase todas as boas ações e projetos de Luiz Paulo foram continuados (…alguns só mudaram de nome, a bem da verdade…rsrsrs…). Mas, nas inovações, João mostrou-se um ótimo gestor e, além disso, um dos políticos mais inacreditavelmente leais com os quais já tive o enorme prazer de trabalhar.

Como se pode ver, a construção de uma cidade, ao longo das várias gestões administrativas, carrega uma rica história, jogos de interesse (naturais em política!) e um conjunto de forças que diante de uma “maestro” inábil, certamente, resultaria em desastre ao desenvolvimento municipal. Não foi assim com Vitória, graças às nossas acertadas escolhas e a uma conjuntura aleatória de fatores que, por sorte, conspiraram a nosso favor.

As duas cidades (em uma), amplamente divulgadas nas duas últimas campanhas eleitorais, uma rica e próspera e outra miserável, ainda existem. Suas diferenças vão diminuindo lentamente com os programas sociais e empenho das administrações municipais citadas. São cicatrizes sociais que demandam muito tempo para serem reparadas. Mas, conforto-me ao acreditar que trilhamos pelo caminho correto.

Por mais que eu goste de viajar (…e eu gosto bastante!…), quando retorno, é indescritível o meu prazer ao reconhecer, ainda de longe, a geografia, a arquitetura, monumentos e jardins desta linda cidade! E saber que no dia ensolarado seguinte, logo cedo, estarei lá, assíduo e pontual, caminhando naquele espetacular calçadão de Camburi saudando, do continente, a beleza e graça desta ilha. Parabéns a todos que participaram desta construção, pois tornaram possível esta grande “vitória”. Uma Vitória de todos nós capixabas!

HSF

O “pancadão” de Prado

Friday, September 11th, 2009

Vai chegando feriado e minha mulher corre pra internet, tentando achar um local aprazível e acessível ($$$) de forma a que possamos ir levando a prole e, preferencialmente, na companhia de amigos, para valorizar ainda mais a viagem. Ela bem sabe que se não tomar a iniciativa, as chances de ficarmos enfurnados em casa é enorme. E se isso ocorrer o previsível será: eu lendo um livro ou no computador, ela na internet vendo qual roteiro teríamos deixado de fazer e as crianças, entre uma briga e outra, jogando Nintendo Wii, vendo televisão ou no computador. Para mim, um feriado perfeito! Para ela, infernal….rsrs…

PradoBahiaBalnearioGuaratiba_atireiopaunogatoSó que neste sete de setembro, pelo visto, chegamos meio tarde. Não haviam mais vagas nos melhores hoteis, das cidades litorâneas mais próximas, ao Norte (porque ao sul, a metereologia previa chuva intensa). No entanto, em Prado (BA), havia ainda uma exceção, num tal de Hotel Villagio Guaratiba Resort. Seriam 5 dias, com café da manhã, para 4 pessoas (2 adultos e 2 crianças) por apenas “seiscentos real”??? Quando todo mundo se animou, eu fiquei com o meu bom e velho pé atrás. O hotel em Prado, mais barato, que não tinha mais vaga, nas mesmas condições, custava o dobro. Aquilo era bom demais para ser verdade.

Mas, a viagem se concretizou mesmo, quando um casal amigo (com suas duas filhas), adorou a idéia de ir a Prado (BA) conosco, pagando tão pouco. Pronto! Risco de ficar em casa, já não se corria mais. Minha mulher respirou fundo, preparou as malas (pelo volume, parecia que ficaríamos 40 dias e não 4…rs…) e traçamos o roteiro. Lá estava eu na estrada de novo (uma sina, pra quem detesta dirigir!). Até que, desta vez foi mais tranquilo, pois este meu amigo, pelo visto, não gosta muito de correr. Ele andava tão devagar que fiquei com medo de chegar a Salvador antes de Prado…..sacanagem, hein!? rsrsrs…Mas, no fundo, todos gostamos da providencial lerdeza do carro da frente.

PradoBahiaPraiaGuaratiba_atireiopaunogatoPouco mais de 7 horas depois (435 Km), chegávamos num portal, não tão digno assim de um Resort, mas o importante é que estávamos lá. Fizemos check in e fomos conhecer os quartos. No caminho (da recepção até os quartos), havia um ar de suspense misturado com abandono. Bonito o lugar era, não posso negar. Mas algo fazia parecer que aquilo era uma pegadinha ou algo assim. Era como se uma banda de música fosse surgir do nada e todo mundo em volta começava a rir da gente, sei lá….

O quarto, mesmo sendo de uma simplicidade espartana, não chegava a atrapalhar a nossa permanência. Logo de frente, uma piscina límpida e azul, só para nós, constrastava com a pobreza da TV 14″ (se bobear aquilo não chegava a 10″…rs.).

Enquanto todo mundo “engolia as orelhas” de felicidade com o achado e se considerando super espertos na escolha do local, eu, que sempre fui o “pessimista” de plantão, ainda não estava plenamente convicto daquilo que eu estava vendo. Mas, nada demais aconteceu naquela sexta-feira à noite. Fomos jantar e depois dormir. Um silencio maravilhoso. É…parecia mesmo que daquela vez, meus receios preconceituosos com coisa muito barata, eram infundados.

Na manhã seguinte, por volta das 9 horas, fui acordado com uma espécie de vibração estranha na cama. Era como um tremor nível 3, na escala richter, em ritmo baiano. Depurando a avaliação, percebi se tratar de música e bem alta. Coloquei a cara na janela e me deparei com uma cena deplorável: dois carros velhos e enferrujados, estacionados de ré, com o porta-malas aberto e com caixas de som “tamanho família” poluindo o ambiente com um Funk da pior qualidade. Na nossa frente, um churrasco comendo solto, vários casais dançando e se divertindo a valer. A piscina, outrora “lagoa azul”, agora estava mais para “piscinão de Ramos”. A cor da água mudou de um azul celeste para um verde amarelado (…xixi, claro…), com aquele “mundo” de crianças pulando e jogando bola dentro. A pergunta era: de onde surgiu toda aquela gente?

Quando deu 20 horas e nossos ouvidos não aguentavam mais, fomos reclamar. A pessoa (ir)reponsável disse que “tomaria as providências, imediatamente”. Só que como esquecemos de perguntar quais, não adiantou nada. A pauleira só foi acabar pouco mais de meia-noite, quando a birita e os biriteiros se esgotaram. Conseguimos dormir.

No dia seguinte de manhã, tão-logo acordamos, com o mais perfeito e alto som do “Tigrão”  ”…tapinha não dói…”, saímos de carro, pelas redondezas a procura de um outro refúgio. A gente já estava até disposto a acampar, se fosse necessário, mas no mais sagrado e profundo silêncio.

Foram várias as tentativas até que encontramos um simpático, honesto, bem administrado, organizado, bonito e equipado Hotel Villa Esmeralda, na mesma praia de Guaratiba, em Prado(BA), a uns 1.000 metros daquela balburdia populaça. Voltamos e demos a ótima notícia aos familiares, até então, isolados em seus módulos habitacionais.

Malas prontas, nem pensamos duas vezes, os oito “burgueses” tiveram de passar em meio àquela confusão toda, numa notória cena que mais parecia uma fuga. Aliás, era mesmo uma fuga. Parecia até a corte portuguesa fugindo de Lisboa, para o Brasil, em 1808, enquanto às tropas napoleônicas invadiam aquele reino….rsrs…

Mesmo, em meio ao “erudito” e alto som de “créu, créu, créu, créu, créu, créu….”, pude perceber os olhares e comentários de desaprovação da galera. Meu filho, de 11 anos, chegou a ganhar o nobre apelido de “riquinho”, quem dera fosse fundado.

No novo hotel, estávamos no paraíso! Nos divertimos bastante e, depois, rimos de tudo aquilo que havia acontecido. O engraçado e curioso é que nós oito, crianças e adultos, não conseguíamos pensar em outra coisa, senão “sumir” daquele lugar insuportável, lotado e barulhento. Só sossegamos quando conseguimos o feito!

Nunca, em toda a minha vida, demonstrei qualquer tipo de preconceito contra credos, raças ou condição sócio-econômica. É evidente que aquelas pessoas que chegaram no dia seguinte e que nos haviam “subtraído” “nossa” tranquilidade, eram de um patente baixo poder aquisitivo. Pobres, mesmo! Mas, não foi isso que nos fez querer sair de lá. De jeito nenhum. Foram as atitudes daquelas pessoas. Aí, sim, rechaçamos aquele grupo que nos deixava, fácil, na condição de minoria.

Aquelas atitudes não eram populares, mas de extremo mau gosto e de uma absoluta falta de educação. Uma total inexistência de senso mínimo de convivência em grupo. Querer que nós tentássemos “acostumar” com aquelas práticas era o mesmo que tentar misturar água e óleo. Eu diria: missão impossível.

Dia seguinte passamos em frente ao antigo hotel e, como imaginávamos, o show de funk, a céu aberto, continuava a todo vapor e a rapaziada “descamisada” dançando, pulando, bebendo, gritando e morrendo de rir da vida. Acho que eles nem mais lembravam daquela gente branca e besta que no dia anterior saiu fugida dali, se negando a participar daquela “mistura” de gostos e tipos sociais.

Naquela noite, sozinho, tomando um belo tinto, deitado numa espreguiçadeira branca ao lado de uma enorme piscina que refletia uma suntuosa lua cheia e um singular céu estrelado, ousei interromper aquele caro e disputado silêncio, com um pensamento muito confortador, em que eu agradecia (não me pergunte a quem? rs…) por estar lá, naquele lugar e naquele momento, com a minha família e com ótimos amigos. De olhos fechados e sorriso no rosto, tomei meu último gole de vinho e antes de pegar no sono, pensei: “….não podia mesmo ter sido diferente!…” .

HSF